A coexistência é o próprio devir revolucionário

Quanto tempo a humanidade precisará? Quanta tristeza? Quanta injustiça? Quanta dor? Quanto desperdício? Para que comece a focar novamente diante do que a atravessa imediatamente?

Focar no acontecimento. Extrair do acontecimento uma memória de futuro sem a qual nós não esticamos o desejo, não intensificamos o desejo, não esticamos e intensificamos a vontade, não nos alongamos e permanecemos de modo tal que a liberdade seja uma coisa produzida, inventada e não dada.

Nós estamos indo rapidamente para essa posição de esgotamento porque nós desaprendemos o devir, nós desaprendemos o acontecimento, nós desaprendemos a criação, nós nos desencontramos das nossas próprias forças de criação.

Nós vivemos de uma maneira tal, separados do que podemos, que nós não acreditamos mais, ou, talvez, nunca tenhamos acreditado. Desde o nosso nascimento, uma vez que essa máquina já se apodera das crianças, ela já faz uma espécie de sequestro sobre as crianças, desde as famílias até as instituições escolares e afins, destituindo essas forças estranhas, mais interessantes e intensivas de uma contemplação experimental.
É como se isso estivesse fora de questão e precisassem ser rapidamente substituídas, essas forças, por formas de verdade.

Essas formas de verdade nos requalificariam, supondo-se, então, que nós temos, de alguma maneira, uma espécie de deficiência, uma espécie de falta inata, como uma espécie de pecado original, uma chaga original, uma insuficiência no existir que nos obrigaria a aderir a formas ideais.

Nós buscamos a esquerda ou a direita. Ideais. A gente pode ter uma forma na direita, uma forma na esquerda… eu adoto uma maneira que eu acredito ser a mais verdadeira e perco o essencial. Há sempre um modo intencional de desejar, que é o nosso engodo.

Esse modo de desejar é que deveríamos vasculhar, fazer realmente a sua genealogia e perceber até que ponto não é esse mesmo olhar pulverizado que deseja através das supostas práticas revolucionárias, quando essas práticas querem distribuir o poder e investir na igualdade. Quando se trata, ao contrário, de destruir o poder, atacando a produção de miséria e de impotência.

Há, em contrapartida, uma educação da potência, que nós sabemos ser pensável e, sobretudo, praticável, exequível.
Nós podemos começar já, agora.
A liberdade não é algo como uma livre escolha. Não se trata de escolher esse ou aquele objeto.

A liberdade é uma questão de intensificar o próprio desejo , escapar à relação ‘sujeito-objeto’, não objetifica-lo.

A coexistência é o próprio devir revolucionário.