O estado toma a potência de direito

Não há falta metafísica nem dívida de existência que não seja antes uma produção estratégica de um círculo de poder. Produção de uma ficção que salta sobre a vida e a sobrevoa.

A inoculação da falta no desejo e da dívida na vida é um dispositivo de captura inventado por uma máquina social, cujo poder se conserva, se transmite e se prolifera a um só tempo por acumulação central em um estado/capital e por disseminação que se pulveriza em micro-unidades individuais e subjetividades marginais.

Qual nossa cumplicidade? Por que permitimos que a falta vinda de fora se interiorize e se inocule no coração do nosso desejo?

Quando se julga, isto é, quando subestimamos as dores ou supervalorizamos os prazeres, quando um afeto em nós deforma e esmaga as diferenças, deixamos também esta ou aquela paixão, uma parte passional tomar conta de nós e mutilar o desejo, sobrepor-se ao todo da potência de acontecer de um desejo pleno.

Então o ‘acontecido’ do acontecimento como um ‘estado vivido’ toma de assalto o centro de ação do nosso corpo de potência.

O estado de fato toma de assalto a potência de direito. O vivido captura e se apropria de nossa potência de viver, de acontecer. Fazemos um mau uso do que nos tornamos.

O fantasma que se desprende do vivido interpõe-se então entre o ser rebaixado que nos tornamos e a fonte inesgotável de realidade que não pára de fugir de nós.

Como aquilo que nos falta e escapa para sempre, num sugadouro de um devir corruptor, de um ser inevitável para a morte cuja energia vital não pára de se esvair.

Como um vampiro a se alimentar do sangue dos vivos, para dar vida agora ao passado como a um morto que precisa ressuscitar.

Como a uma memória registrando o irrevogável que volta para se vingar.

Como o mal passado atrasado que volta para ser restituído recebendo o crédito e o adiantamento do que não foi capaz de viver.

Como o acontecido que se projeta como sombra e eclipse do presente a abortar o futuro.