Curso de Introdução à Esquizoanálise em 2022 (Transcrição – aula 1)

19/06/2022

O EU como passagem e a demolição do sujeito

Aula completa no Youtube

Olá, pessoal! Boa noite! Boa noite. Que alegria. Que alegria estar aqui com vocês.
Deu eco aqui, tive que interromper.
Uma alegria muito grande, novamente. Estamos aqui já fazendo uma tradição, não é? Todo ano, mês de junho, começo do inverno. Começamos bem o inverno.
Hoje, dia 19 de junho, estamos a dois dias do início do inverno e, à semelhança dos outros anos… Os dois anos anteriores foram no dia 20, né? 2020 foi dia 20, 2021 foi dia 20, e hoje, 19 de junho de 2022.
Já temos muita gente aqui de novo. Eu sempre fico muito contente e impressionado com o número de pessoas que vêm aderindo, ano a ano, a esta nossa maneira de pensar e de viver, e que, por efeito também, no foco clínico, se denomina Esquizoanálise. É muito alegrador saber que, cada vez mais, isso tudo que vimos chamando à atenção ao longo dos anos se torna cada vez mais necessário. É sempre cada vez mais urgente. Não nos cansamos de experimentar isso em nosso dia a dia. Entra ano, sai ano, parece que, do ponto de vista do curso social das coisas e de humanidade, a decadência cresce e se aprofunda. Então, não há a menor sombra de dúvida que nós precisamos cada vez mais investir profundamente em uma nova maneira de viver.
E essa nova maneira de viver não é, de modo algum, uma utopia — exceto se entendermos por utopia um lugar a ser criado. Aí ok. Sem dúvida, é um lugar a ser criado, um tempo a ser criado, uma nova maneira a ser criada, e disso nós nunca fugimos, dessa questão.
É necessário entendermos cada vez mais que nada vai nos preencher, nada vai nos preencher, se não criarmos isso que nos irá preencher, isso que, de alguma maneira, vai nos diferenciar. E essa visão, esse pensamento, essa prática, essa maneira de viver que nós denominamos como modo nômade de vida e, do ponto de vista clínico, Esquizoanálise, é uma arma de guerra, vital, extremamente urgente e necessária, por quê? Porque nada irá mudar, nada irá mudar efetivamente se não começarmos a olhar para o nosso modo de vida. Deixar de apontar o dedo é fundamental.
Deixar de apontar o dedo e sonhar com o bem, temendo o mal. Essa velha maneira não dá mais certo. Nós devemos sair desse buraco que, de alguma maneira, envolve a humanidade há talvez já, provavelmente, mais de cinco, seis, sete mil anos. Mas, nos últimos mil anos, ou até dois últimos mil anos, tem se aprofundado cada vez mais um projeto, um processo de assujeitamento do desejo, de captura do pensamento e de docilização dos corpos. Então, é fundamental entendermos que a tarefa crítica é extremamente urgente.
Eu, antes de tudo…. Deixa eu me apresentar para quem não me conhece. Eu soube aqui que tem muita gente nova chegando. Isto é um ótimo sinal. Pessoas que ainda não haviam ouvido falar da Esquizoanálise, e que começam a querer saber mais sobre o que seria, o que é esse pensamento, essa visão, essa prática, essa maneira de viver que denominamos Esquizoanálise.
Eu sou Luiz Fuganti, da Escola Nômade de Filosofia. Venho exercendo, praticando, experimentando, fazendo da minha própria vida um laboratório inserido nesse pensamento da filosofia da diferença, da filosofia da imanência, desse modo nômade de existir, desde muito cedo. Desde que eu entrei na universidade e encontrei linhas potentes de pensamento e de experimentação de vida. E desde lá eu não paro de me aprofundar. Apesar de ter entrado na Arquitetura, eu me envolvi com a Filosofia exatamente porque era impensável uma arquitetura interessante sem problematizarmos os modos estabelecidos de vida, os valores estabelecidos, e a nossa cultura. Essa crítica então veio se aprofundando, e o que me faz cada vez mais convicto de que não faremos nada se não exercermos uma crítica real, uma desconstrução real, uma verdadeira demolição do sujeito que habita em nós, daquilo que chamamos de EU.
A necessidade então dessa desconstrução, dessa demolição, é imperativa, por quê? Porque é justamente aquilo que nós nos tornamos ao longo desses processos históricos, culturais, socioeconômicos e políticos, o que nós fomos nos tornando foi também uma barreira para nós mesmos, que nos impede de ver, que nos impede de sentir, que nos impede de perceber e que nos impede fundamentalmente de apreender essencialmente o que somos — porque o que somos, na verdade, é o que podemos. E o que podemos quando estamos separados das nossas próprias forças? Não sabemos. E por que estamos separados das nossas próprias forças? Pelo nosso próprio modo de vida.
Se existe um foco essencial que devemos trazer para o primeiro plano do nosso pensamento, da nossa crítica, e de uma tarefa desconstrutiva, é o modo de vida que impede que a nossa existência seja a de grandes viventes.
Então, se isso é possível, se nós podemos, de alguma maneira, fazer essa crítica; e se, ao mesmo tempo, é mais do que possível, é extremamente necessário, a razão dessa necessidade é que, sem essa desconstrução, nós vamos permanecer separados do que exatamente? Das nossas próprias forças. “Das nossas forças” significa que nós não precisamos de outras forças, inicialmente não precisamos. Tudo já está em nós. Tudo já está. Por que não nos relacionamos com aquilo que podemos? Por que fazemos tão pouco essa questão? Porque geralmente nem se faz essa questão, nem se coloca esse problema. É porque há uma crença de que nós somos naturezas insuficientes. De que há uma falha na existência, que a existência implica necessariamente uma falta, uma insuficiência, uma carência que, em última instância, metafisicamente, se traduz como uma dívida de existência. E que religiosamente se traduz como pecado, por exemplo. O pecado do investimento no corpo, no devir, no movimento, no tempo, no acontecimento. Seríamos pecadores por causa disso?
Enfim, essas coisas são muito interessantes de pensarmos. E não paramos de nos surpreender, porque continuamos… entra século, sai século. Agora estamos no século 21. No século do futuro. O futuro chegou, bem-vindos ao futuro. E vivemos em uma sociedade. Qual sociedade? Esta que está.
Ano passado tínhamos falado que havia piorado em relação ao ano anterior. E agora? Não piorou ainda mais? Então é como se dissessem assim, ao modo de uma graça, “Não se preocupe, que tudo vai ficar pior”. Mas nós somos daqueles que adotam o “quanto pior, melhor”? Não, né? Nada a ver. Nós precisamos é criar uma maneira de aproveitar tudo o que acontece, mas sempre no sentido da superação, e não no sentido da detração, da lamentação, da lamúria ou do deboche em cima da condição humana Ou do aproveitamento: “já que tudo vai mal, vamos lucrar com as paixões tristes e com a morte”.
Ao contrário, achamos que viver de modo baixo, de modo rebaixado é o investimento de uma espécie de sub-raça que se pretende, pasmem, como uma raça supremacista. Temos aí movimentos supremacistas brancos que, na verdade, ao nosso ver, não passam de sub-raças, se quisermos falar assim. Raças interessantes são raças que afirmam a vida e a diferença. E que não precisam rebaixar e exercer o preconceito para se apoderar dos outros e submeter a vida a um controle. Nós podemos atingir uma maneira de viver na qual tomamos um gosto tal pela diferenciação de si, que não paramos de nos alegrar também pela diferenciação do outro, e na qual a inveja estaria banida.
Enfim, é isso.
Eu, então, dizia que nós vimos já de longa data fazendo esse movimento, oferecendo esses encontros anuais. Neste ano eu resolvi fazer em cinco encontros, porque sempre acabávamos aumentando um outro para responder a questões, e neste ano eu resolvi incluir este outro. Vamos fazer exatamente em cinco encontros, com menos duração talvez do que as últimas experiências, porque duas horas e pouco de duração acaba sendo um pouco cansativo para muita gente. Então resolvemos fazer um pouco mais curto. Esses eventos gratuitos — porque é uma disposição que eu tenho: oferecer não uma provinha, não uma experimentaçãozinha, mas tudo o que eu posso dar dessa maneira, e vou me entregar aqui ao máximo para vocês. Tudo o que eu puder oferecer para vocês nesse tempo e nesses encontros, eu vou fazê-lo com o maior desprendimento. Por quê? Porque o nosso interesse é que esse pensamento, essa visão, esse modo de viver se espalhem, contagiem, gerem um movimento de contágio.
Nós devemos aprender a lição dos vírus. O ensinamento dos vírus. Nós temos uma lição para aprender com os vírus. A potência do vírus, a potência de multiplicação dos vírus é também aquela que pode fazer com que nós, humanos, rompamos as bolhas subjetivas, grupais, os nossos guetos, enfim, os nossos vários nichos, sejam de classe, sejam de raça, sejam de gênero, e atinjamos o desejo em seu estado intenso e sem forma, para ultrapassarmos toda a segregação e preconceitos sociais, e entrarmos em um modo de comunidades, de comunas autenticamente abertas que se alegram com a afirmação da diferença, nas quais nós não necessitemos essencialmente de um Estado, de uma Lei, de uma Moral, porque sabemos, aprendemos a nos compor, a compor nossas potências de modo imediato.
Eu então estou aqui de novo para propagar, o máximo que eu posso, passando minha experiência e compartilhando tudo o que venho pensando até aqui, para que essas práticas de cura (que são, na verdade, práticas de cuidados extremos com o nosso modo de viver) se instituam cada vez mais, se inoculem nos interstícios das relações sociais. Nós precisamos dessa cura, nós precisamos desse cuidado. E uma cura plena, uma cura que nos devolva novamente as nossas forças porque, na verdade, à nossa vida nada falta. Por que estamos separados do que podemos? É este o desafio. Nós podemos, então, retomar isso. Retomar a vida de um ponto de vista pleno — não de um ponto de vista conformado, não de um ponto de vista reformista, não de um ponto de vista pelo qual façamos concessões, ou nos conciliemos com algo, ou façamos alguma negociação com as paixões tristes, com os poderes tirânicos ou com um sacerdócio de lamentação. Não. Nós não precisamos fazer isso. Ao contrário: a vida pode ser livre, aberta, potente. Nós não apenas acreditamos nisso; nós praticamos isso, nós sentimos isso, nós vivemos isso. É isso o que eu quero, dando aqui o melhor de mim, fazer passar.
Infelizmente, hoje eu ainda estou me recuperando. Estou em processo de convalescência de contração de Covid. Eu contraí Covid e descobri no meio da semana, depois de já estar com baixa vitalidade, com três dias que tinha sido atingido pelo vírus, e estou em franca recuperação. Então talvez hoje eu não me estenda aqui demais, mas o propósito dessas aulas, em matéria de duração, não é mesmo se estender como fizemos no ano passado, mas talvez, com uma hora e quinze, uma hora e meia de exposição, possamos atingir o objetivo ao menos de começar a esboçar o primeiro tema-problema que nós anunciamos recentemente, que é encontrar, ou tratar, ou apreender o Eu como uma zona de passagem, e não como um sujeito, mas o Eu como uma máscara, um modo de passar.
Vamos falar disso e da necessidade da demolição do sujeito que, na verdade, é aquilo que nós vimos chamando, nos anos anteriores, de “desconstrução de nós mesmos”, ou também “lição de casa”. A lição de casa implica a demolição do sujeito em nós.
A demolição do sujeito em nós nos deixaria mais fracos? Muito ao contrário. A demolição do sujeito em nós liberaria o nosso desejo, a nossa potência, a nossa energia para investir diretamente em um plano de consistência do nosso modo de existir. A consistência é algo que não tem preço e não se compara com a estruturação de um sujeito. A estruturação de um sujeito é sempre um modo de capturar o desejo, de rebaixar a vida. Mas a produção de consistência é, na verdade, a potencialização da própria potência, que nos envolve em um processo que nós não saberemos onde daremos, porque nós não sabemos o que pode o nosso corpo, o nosso pensamento, o nosso desejo, quando afirmados imediatamente por uma zona de passagem que necessariamente faz com que nos diferenciemos e nos potencializemos. É um circuito virtuoso do desejo, um circuito intensivo do desejo.
É isso o que eu queria dizer, que hoje eu me sinto ainda um pouco fragilizado, um pouco debilitado, porque não estou reestabelecido ainda da Covid, mas eu acho que consigo fazer uma exposição suficiente para, no nosso próximo encontro (daí espero já estar inteiro) retomarmos com toda a força, vivacidade, dedicação que merece a aplicação desses temas.
Eu vejo aqui, tem mais de 700 pessoas conosco. É sempre muita gente. Entra ano, sai ano, a coisa cresce bastante. Muita gente se manifestou aqui no chat. Eu depois vou olhar com calma. Todo mundo que apareceu aqui disse boa noite carinhosamente, fez votos de bons encontros. Tem muita gente bacana aqui. E, antes de iniciar a exposição propriamente do tema, eu queria dizer o seguinte: que eu não vou ter tempo de ler as questões, porque senão eu não consigo fazer a exposição, mas depois as lerei. E também vocês podem me mandar, ao longo da semana, por e-mail, no e-mail da Escola Nômade, que é [email protected] Se vocês escreverem as questões por lá, eu vou ler uma por uma e prometo que nos próximos encontros — além desse nosso de agora, vamos ter mais ter mais quatro — eu as responderei, à medida, claro, que tiverem a ver com as nossas questões aqui.
Mas eu queria, de novo, manifestar o meu agradecimento, a minha alegria, por encontrar tanta gente bonita, tanta gente boa por aqui. E por isso eu quero começar dizendo uma coisa a vocês:
Durante muito tempo, a Esquizoanálise foi envolvida em uma mística de que era um pensamento difícil, prolixo, ou até inacessível. Este ano, em março de 2022, fez cinquenta anos do lançamento do Anti-Édipo, em Paris. Obra dos criadores da Esquizoanálise, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Quem ainda não adquiriu essa obra e tem interesse, mesmo que seja mínimo, na Esquizoanálise, vale muito a pena a edição atual brasileira, pela Editora 34 Letras, com uma tradução belíssima e rigorosíssima do meu querido amigo Luiz Orlandi. Está aí acessível, é um livro que não é nada caro, e é fundamental já entrar nesses textos.
Eu lembro que, em um certo momento, havia muita gente se queixando que era um texto difícil, e a resposta dos autores era que foi escrito para gente que tinha 15, 16, 17 anos. É incrível. O que eles queriam dizer com isso? Eles queriam dizer que para um livro não se deve ter uma abordagem pela interpretação dos significados, do que ele significa, mas, principalmente, do uso que se faz do que está ali escrito. Do uso que se faz daqueles conceitos, daquelas palavras, daquelas ferramentas — porque o que mais importa no encontro com o livro é a nossa vida se pôr em acontecimento. Se a nossa vida é tocada, se ela se põe em acontecimento, se ela entra em devir, não há nenhuma verdade no fim do túnel. Não há nenhuma significação verdadeira a ser atingida. Mas, na verdade, a escritura, o texto, o livro serve simplesmente como modo de deslizar. É como uma onda que você vai surfar. Dependendo de como a onda se apresenta e como você joga com o seu corpo, e o movimento da prancha, do corpo e da onda, pode dar jogo e pode dar fluxão, fluência. Pode fazer com que a sua potência comece a se diferenciar. É disso que se trata, é isso o que importa.
Então, não se preocupem com esse livro que, porventura, pode ser “indecifrável” para espíritos demasiado acadêmicos. Os acadêmicos, infelizmente, ainda estão habituados a valorizar por demais a crença na verdade, a crença na forma de um ser que, no fundo, não passa de uma imagem fictícia. Não há nenhuma verdade, nenhuma parada, nenhum ser para o devir que não seja a própria zona de passagem. Então nós estamos, nesses cinquenta anos do Anti-Édipo — meio século, portanto —, e o que nós temos hoje em dia? No Brasil nós temos, felizmente, esse contágio que está se dando cada vez mais. Eu não tenho ideia de como isso esteja acontecendo no mundo ou como isso esteja acontecendo na Europa. É improvável que essas ideias estejam germinando muito lá, porque são sociedades já muito velhas e muito decadentes. E a sociedade americana, por exemplo, que é uma sociedade bastante decadente também, ainda não se apercebeu do buraco em que se encontra. Então é possível que demore mais tempo para o Anti-Édipo atingir esses espíritos dessas regiões mais centrais e do Norte do planeta do que as regiões mais periféricas e ao Sul do planeta, como por exemplo aqui no Brasil.
Aqui, nós sentimos a necessidade e a urgência de obras como essas porque são obras que deixam de investir nas velhas maneiras reformistas de salvar ou ser humano, tal qual o ser humano foi investido há milênios, e principalmente nos dois últimos mil anos — mais fundamentalmente nos últimos 250 anos, talvez, no máximo, 300 anos. O Anti-Édipo é uma máquina demolidora disso que nós temos nos tornado. Uma máquina demolidora dos modos dominantes de existir. Os modos dominantes de existir estão envolvidos em um modo de desejar equivocado já desde a sua primeira manifestação, quando esse desejo se torna intencional. O modo intencional de desejar é necessariamente um modo derivado de uma vida separada do que pode.
E nós temos visto os pensamentos, as teorias, as práticas psicoterapêuticas que visam consertar desejos e mentes supostamente desarranjados, restabelecendo-as em um trilho de uma evolução, em um progresso, em uma inclusão, em um modo dominante de existir que não passa de um modo de assujeitamento do desejo. Essa produção de subjetividade que rebaixa a vida e que pendura a vida em um ideal significante que a torna ainda mais endividada, ainda mais refém, ainda mais pendurada em um futuro que jamais chega, na ilusão de empoderamento. E quanto mais ela anda nessa direção, mais ela cava, como diz a música do Cartola, “o abismo com os próprios pés”. Quanto mais anda dessa maneira, mais o abismo cresce.
Nós e a Esquizoanálise não estamos aqui para salvar o sujeito, para salvar uma forma humana e, ao modo de Kant, encontrar um modo superior humano de desejar, ou encontrar um modo superior humano de pensar, ou encontrar um modo superior humano de julgar. Nós queremos descontruir a forma humana, e não a deixar perfeita. A forma humana já é falha necessariamente, exceto se ela for tratada como forma de passagem. Como um ser de passagem, melhor dizendo — nem como forma, mas como ser de passagem.
E como nós podemos fazer isso? Primeiro, então, não podemos acreditar que os desarranjos mentais, que a doença mental, que as patologias mentais, as patologias do desejo, as patologias do corpo tenham a ver com questões individuais, ou tenham a ver com questões pessoais, ou tenham a ver com questões familiares. O indivíduo, a pessoa, a família já são efeitos, são respostas, são operadores de uma máquina social. Nenhum indivíduo, nenhuma pessoa carrega o ônus de um delírio individual ou de um delírio subjetivo, porque nenhum delírio é pessoal ou individual. Todo delírio, necessariamente, já é imediatamente social. Não há desejo que não invista imediatamente — por mais chafurdado, atolado e ensimesmado — em uma interioridade familiar. Mesmo essa família atolada, fechada, ensimesmada é, na verdade, um modo de se acoplar ao campo social.
Tudo é resposta para um campo social. Nenhum desejo deseja inicialmente de modo a investir uma figura parental como pai, mãe, filho, irmão, irmã, avô, avó etc. O desejo investe em meios de se conectar, de se acoplar e de acontecer. É disso que se trata. E ele jamais se fecha, por mais que tentem fechá-lo nos papéis parentais. E, nesse sentido, há uma diferença radical entre a Esquizoanálise e a Psicanálise. Há uma diferença radical entre a Esquizoanálise e as psicologias e psiquiatrias dominantes. Há uma diferença radical das psiquiatrias que visam controlar, medicalizar, inocular camisas de força químicas no desejo quando, na verdade, não sabem nem o que é viver. Não dão conta da vida, não têm visão sobre o que é viver, e prescrevem, de modo leviano — ou desesperado, talvez, porque não dariam conta de uma suposta loucura, de um suposto desarranjo social —, medicamentos, elementos que vão inibir o desejo no cérebro. Afinal, não cabe tanto desejo nessa nossa sociedade. Não cabe tanto desejo em um corpo que quer acontecer, mas não há espaço para ele, não há tempo para ele, não há condições para ele.
Não sabemos o que fazer com tanto desejo, então a própria sociedade investe em inibi-lo. Há, como diriam Deleuze e Guattari no Anti-Édipo, uma máquina de antiprodução, uma máquina de esvaziamento das intensidades. O desejo intensivo não é bem-visto, não é bem-quisto. Como diria o inominável, em relação ao jornalista britânico recentemente assassinado, “ele não era bem-quisto”.
O que não é bem-quisto para esses vermes (com o perdão dos vermes)? O que não é bem-quisto? Não é bem-quista a vida em estado pulsante. A vida intensiva incomoda sempre aqueles que estão separados do que podem, aqueles que se tornaram impotentes, e aqueles que vivem, sobretudo, dos impotentes e das paixões tristes. Ah, isso sim a vida intensiva incomoda. E nós precisamos adequar essas vidas incômodas, perturbadoras, às vidas que não aguentam a diferença, que não aguentam as intensidades? Então é a serviço disso, eu pergunto, que as psicologias dominantes, as psicanálises e, sobretudo, a psiquiatria está a serviço? De adequar as vidas? Eu vejo, não para de chegar na clínica gente sempre medicada com antidepressivo, com ansiolítico, com estabilizador de humor, com calmantes de toda ordem, com anestesiantes de toda ordem.
Nós vivemos em uma sociedade de anestésicos. Nós vivemos em uma sociedade que destrata a dor, em vez de cuidar e encarar a dor, encontrando o seu sentido alegre. Nós vivemos em uma sociedade que não pode ver uma experimentação que não esteja enquadrada nos seus cânones. E classifica essa experimentação como doença, proibindo, na verdade, a experimentação. Os diagnósticos são modos de barrar as experiências do desejo. E os prognósticos, a medicação, a medicamentalização são modos de acalmar, de anestesiar, de fazer com que aquela intensidade toda seja descarregada.
Então significa o quê? Que, se a sociedade necessita muito das suas peças, e as suas peças fundamentalmente devem estar no formato de indivíduos e de sujeitos — sujeito lógico, sujeito moral —, um indivíduo cuja trindade do sujeito lógico, moral e físico forma o preposto de poder em nós, uma entidade de um ser humano padrão, um ser diligente, essas unidades subjetivas e fisiológicas servem para quê, afinal? Para se controlar a vida. O controle da vida é o que está em questão. Ora, a máquina social precisa do indivíduo e dos sujeitos. Ela precisa disso, assim como ela precisa das famílias, e precisa da reprodução de suas peças. Ela, que precisa tanto disso, não faz isso sem inocular um limite — que é o seu limite — para dentro de cada um de nós. O limite, que é o seu limite, que antigamente era o limite da lei, que depois passou a ser o limite da norma, deve ultrapassar da lei para a norma, da norma para o próprio desejo. O próprio desejo deve desejar a partir do seu limite. E aí você pode dar até livre curso para o desejo, como Kant queria dar. O desejo se tornaria legislador quando inoculasse o limite dentro dele, quando ele se tornasse normativo, esse ideal da máquina social, para que funcione o seu centro de soberania.
É aderido? Há uma adesão dos seus mecânicos, dos seus arranjadores, dos seus restauradores, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras? Esses mecânicos de subjetividades desarranjadas? É para isso que serve a clínica? É para submeter novamente a vida? É para dizer “olha, não há outra forma, vamos levar a vida a se adequar, porque assim você vai sofrer menos. Porque assim você vai ter sucesso. Porque assim você tem mais chances de ser reconhecido socialmente. Você vai ter um futuro e vai poder falar em nome próprio.”? Jamais. Em nome próprio, jamais.
Quando você diz “Eu”, não é a sua singularidade que está falando em você. Quando você diz “Eu”, o Eu nada mais é do que um outro em você. É um outro que fala em você. Como diria Nietzsche, “Quem é o nosso eu?”. Quando dizemos “Eu”, achamos que estamos tocando no nosso íntimo, no íntimo da nossa mais profunda interioridade. E esse Eu não passa de um fragmento de exterioridade, de um pedaço de exterioridade. O nosso Eu é um pedaço de exterioridade. O nosso Eu é um código de linguagem. É um modo de criar, na verdade, uma superfície de passagem. E é isso que eu queria cuidar aqui hoje, falar, pelo menos um pouco, disso.
O que seria o Eu como zona de passagem? Por que o Eu é tido como uma essência interior e profunda? De onde vem essa ficção? Nós não cansamos de dizer, de afirmar: nossa tese essencial é que o Eu nada mais é do que uma redução de nós mesmos a partir da interiorização de um limite. O Eu começa quando nós confundimos a potência de acontecer que nos constitui, a potência de acontecer e de criar realidade que nos constitui de direito com um acontecido de fato, que se coloca no lugar dessa potência de acontecer. E, “que bom”, a psicanálise e outras teorias e práticas clínicas ligaram isso a traumas, a complexos. Mas há várias naturezas de traumas e complexos. O que importa é que esses acontecidos, se pondo no lugar da potência de acontecer, fundam o Eu e a alma. O que chamamos de alma, o que chamamos de Eu, onde vai se construir o sujeito, o edifício trapaceiro do sujeito, é a partir dessa interiorização de um limite, de um modo de viver que se separa do que pode porque confundiu o que lhe aconteceu com sua potência de acontecer, com sua potência de criar.
E, claro, isso não é meramente um acidente pessoal. Acontece pessoalmente de cada um de nós cair, e cair muitas vezes na vida. Mas as instituições estão aí como coveiros, ou donos de funerárias, ou urubus, prontos para dizer “Você caiu. Bem-vindo ao mundo. Bem-vindo à vida como ela é em sociedade. Você caiu, finalmente eu posso te dar a mão. Você caiu, finalmente você pode aderir ao modo verdadeiro de existir.”
A máquina social, o centro de soberania, com seus braços, com seus aparelhos de Estado, com suas instituições, não para de nos oferecer as suas esmolas, as suas migalhas, o seu braço salvador, as suas narrativas, os seus ideais, o seu modo de julgar, a sua publicidade, o seu futuro, as suas promessas de empoderamento. E nós dizemos, “Ah, sim, nós caímos, mas ainda bem que tem vocês aqui para nós”. “Eu caí, mas eu seguro na mão de Deus, eu seguro na mão da sociedade, eu seguro na mão do Estado, eu seguro na mão da mãe, do pai, eu seguro na mão de alguém”. Eu sempre vou ter uma segunda chance de me levantar. De que maneira eu vou me levantar? Eu vou me levantar me empoderando? Mas o que é se levantar se empoderando? Por que não se levantar se potencializando? Mas, para isso, eu preciso perceber a minha cumplicidade.
Eu dizia no início: se existe uma coisa que é o foco principal da Esquizoanálise, é a maneira de viver. Foque no modo de vida. O modo de vida é tudo. O modo de vida não é uma questão de indivíduo, não é uma questão individual, não é uma questão pequeno-burguesa. É uma questão essencial. Não há modo de vida que não seja imediatamente coletivo. Mas é muito mais do que coletivo: é individual e coletivo ao mesmo tempo. É público e privado ao mesmo tempo. Mas o buraco é ainda mais embaixo. O modo de vida envolve multiplicidades mais sutis e mais profundas do que as dos indivíduos, ou da coleção de indivíduos, ou da coleção de pessoas, ou dos coletivos. As multiplicidades envolvem campos de força. As multiplicidades envolvem campos afetivos, linhas de desejo. Envolvem campos de força que são mais sutis do que indivíduos, pessoas e substância.
A maneira de viver é fundamental. O modo de vida é fundamental. E o modo de vida implica cumplicidade. Esta sociedade não se manteria, a Amazônia não estaria deste jeito, os nossos povos indígenas, os movimentos pretos, os movimentos sexuais, os movimentos de vários tipos não estariam nesta condição que estão. Nós não estaríamos nesta decadência com estes tipos de governos e de faz-de-contas, de regimes de escolha, essas instituições apodrecidas, se não houvesse uma cumplicidade profunda no nosso modo de viver.
Então, o nosso modo de viver é fundamental, temos que nos focar nele, mais do que ficar preocupados em apontar o dedo para um inimigo exterior. O inimigo não é nem exterior, em última instância, e nem interior, em última instância. O inimigo está no meio, está no entre, está na nossa maneira de viver, de desejar e de acreditar. E isso é fundamental. O inimigo está no modo como nós nos construímos como Eu ou como sujeito. Nós nos tornamos sujeitos assujeitados. E, como sujeitos assujeitados, nós somos reprodutores, cúmplices e coniventes com o estado de coisas que aí está. Significa que somos causa direta, que investimos nisso, que investimos na própria decadência? Não é isto o que eu estou dizendo. Eu digo que é preciso não deixar de ver jamais aquilo que nos envolve e que nos implica, para cuidar, curar realmente. A cura não é uma cura para dizer “ah, vamos apaziguar, vamos acalmar, vamos encontrar bálsamos para a vida”. A cura é reencontrar as forças que fazem com que pensemos, vivamos, apreendamos a plenitude do ser, de um corpo pleno, com pensamento afirmativo e criador. Essa é a cura real. A Esquizoanálise implica isso. A Esquizoanálise está aqui para que retomemos a nossa vida que entrou, em algum momento, em decadência, ou se perdeu de si mesma. Nós podemos retomar isso. Isso é essencial.
A Esquizoanálise em uma ponta. E na outra ponta, o que deveria estar? A educação. Mas a educação, dá até medo de falar esse nome. Educação é um nome que parece até feio, de tanta coisa feia que foi feita com a educação. Então nós precisamos inventar uma nova maneira de ensinar e aprender. As nossas crianças estão aí à mercê dessa humanidade doente, desses adultos que não fazem a lição de casa. Como eles podem cuidar das crianças? É mais fácil se não atrapalharmos as crianças, para que no futuro elas encontrem vias mais salubres e inventem futuros, direitos. Há futuros outros que fazem com que a vida entre em devires ativos e autossustentáveis. Mas nós podemos também (e devemos) atuar na outra ponta, desde que façamos a lição de casa.
E o que é a lição de casa? Eu não me canso de falar. A nossa casa fundamental é o nosso corpo. É o corpo que envolve a nossa potência, o corpo de potência, sem o qual a nossa potência não se efetua. E o corpo de potência, além de ser o nosso próprio corpo fisiológico, é também um corpo sem órgãos, um corpo de intensidade. Mas, junto com esse corpo de intensidade, temos o corpo da casa, temos o corpo da rua, temos o corpo da cidade, temos o corpo do campo, temos o corpo da floresta, temos o corpo dos mares, temos o corpo dos desertos, temos o corpo das estepes, das geleiras, dos vulcões, das atmosferas. Nós temos vários corpos. O corpo da terra.
A lição de casa é retomar as forças do corpo, criar um corpo próprio. Um corpo próprio que afirme a vida, e não um corpo comum, ordinário, que se torne a prisão da vida. Nós precisamos fazer isso. A lição de casa é descontruir as prisões, o que aprisiona o nosso corpo próprio, o nosso corpo de potência, o que aprisiona o nosso desejo, o que aprisiona o nosso pensamento, o que aprisiona os nossos modos de vida. E como vamos desconstruir isso? Só vamos desconstruir isso quando começarmos a perceber minimamente que algo de nós colabora com a construção das próprias prisões que nos aprisionam. Há algo de nós.
Então, é nessa medida que poderemos dizer “Não vamos mais alimentar essas células cancerígenas”. De que se alimentam as células cancerígenas que constroem a prisão do nosso corpo, a prisão da nossa mente, a prisão do nosso desejo, a prisão das nossas maneiras de existir? De que elas se alimentam? Elas se alimentam das paixões tristes. Elas se alimentam das misérias afetivas. E quem mais estimula a produção e a multiplicação das paixões tristes e das misérias afetivas, senão uma sociedade que lucra com a morte, que lucra com a tristeza, que lucra com o rebaixamento da vida, oferecendo a outra mão? Com uma falsa riqueza para aplacar essa miséria, com um falso poder — afinal, seria uma potencialização? Não, é um empoderamento — para aplacar as nossas impotências. Com um falso preenchimento para aplacar as nossas faltas infindáveis.
O modo de vida é fundamental. E nós podemos então começar a dizer assim, “Ora, mas quando nos tornamos cúmplices?”. Nos tornamos cúmplices quando damos uma parte de nós mesmos para nos policiar e policiar os outros. Quando algo de nós se torna o controlador que vinha de fora e que se apropriou de nós. Esse controlador se chama “Eu”. O Eu é um controlador dentro de nós.
Como o Eu entra em nós? Quando dizemos “Eu”. Podemos observar: o bebê, a criança, em seu primeiro ou segundo ano de vida, balbuciando, aprendendo a dizer “Eu”. O que diz “Eu” nela? Quem diz “Eu” nela? Quem diz “Eu” nela é sempre uma força. Qual força? A força de retomada dela mesma. Ela sente que algo nela está vendo e vendo de novo. E que, sobre a visão, há sempre a colocação de um problema que ela pode se pôr para responder. E ela está lá de novo, se apresentando para dizer “Sou de novo que estou vendo. Sou eu de novo que estou ouvindo. Sou eu de novo que posso criar um gesto, posso andar”. Há uma demanda sob o nosso centro de ação, como diria Bergson. Nós somos essencialmente um centro de ação. Um centro de ação e de reação. Nós somos um centro que percebe, que se afeta, e que responde ou age. E a repetição desse ciclo faz com que digamos “Eu”. Mas esse Eu nada tem a ver com preposto de poder. Esse Eu tem a ver com a mobilização da nossa potência. E por que, logo em seguida, vem, insidiosamente, um modo de usar a linguagem, ou um modo que prega a criança em um regime semiótico de linguagem que faz com que esse Eu se torne cada vez mais um Eu que vai adquirindo responsabilidades, deveres e direitos? Como isso vai se instaurando dentro de nós? Quando essa casca exterior chamada Eu — que no início é uma zona de passagem para essa criança, que apenas retoma a si mesmo, se expressando nessa zona de passagem —se torna cada vez mais uma marca e se confunde com o acontecido a cada vez que esse acontecido se torna traumático ou cria uma lacuna, um vácuo (ou, pior ainda, um buraco). O Eu começa então se confundir com um buraco em nós. Deixa de ser essa zona de passagem e de experimentação.
E nós, cada vez mais, vamos desaprendendo esse processo. Até que daqui a pouco vamos crescendo, nos tornando mais adultos, e vamos percebendo que não sabemos quem somos. Vamos nos desconhecendo cada vez mais, vamos nos abandonando. E o que somos, em essência? Somos uma potência de acontecer. Mas onde está a potência de acontecer, sob o signo do Eu que virou um conjunto de deveres e direitos? Que virou uma instância moral em nós? Que virou a instância que vai censurar as nossas paixões, os nossos sentimentos, os nossos desejos? Onde está essa zona de passagem da experimentação? Nós perdemos a cada vez que nos são cobrados socialmente uma posição, uma postura de corpo, uma atitude de desejo, um posicionamento verbal que se confunde com moral, sob o manto de uma verdade especulativa. “Ah, você está aprendendo a…”. Você está aprendendo a…? Não, você está se submetendo a um dever-ser.
Há um processo de produção, de construção do sujeito em nós que assujeita o nosso desejo. E o sujeito atua individualmente. Foucault já dizia, em 1966, há 56 anos, que o homem, a forma-homem tem duzentos anos. No As palavras e as coisas, uma obra célebre, ele dizia que havia um processo de construção da forma-homem em cada um de nós. A produção desse preposto dentro de nós. A construção desse sujeito não para, ela segue. Nós estamos em 2022 e isso parece que não tem trégua. Parece, mas quem de nós aguenta? Quem de nós quer seguir nesse processo? Não haveria coisas muito mais interessantes para se fazer na vida? Nós não estamos perdendo tempo, sempre querendo colar, rearranjar, adaptar, conformar o nosso desejo, o nosso campo afetivo, fazendo de nós mesmos um Frankenstein? Cada um de nós virando um espantalho?
Então, eu diria que é preciso reconquistarmos a coragem. É preciso se pôr em experimentação. E, para se pôr em experimentação, também é preciso doses de prudência. As doses de prudência como doses de vacina. O que é a vacina, senão a inoculação do inimigo em nós? Mas o inimigo em um estado tal que ele não consegue mais fazer estragos. Ao contrário, ele nos ensina qual é o processo da sua desconstrução, do seu combate. Nós podemos inocular doses do inimigo dentro de nós. Doses suficientes para que aprendamos com o inimigo, encaremos o inimigo, entendamos o que ele faz, o que ele produz em nós, o que ele quer de nós, como ele se apropria de nós. E como nós podemos chegar ao ponto de dizer “Ah, entendo tudo agora”. E você retribui isso com um sorriso demolidor, que vai atuar no sentido de acelerar a demolição de toda posição de sujeito em nós. Nós não precisamos de sujeito. O desejo inconsciente não carece de se tornar sujeito, assim como o próprio desejo não tem objeto.
Há, sim, uma maneira prática de se fazer isso. E se esse pedaço de exterioridade chamado Eu vai aos poucos se inoculando em nós, se interiorizando a ponto de acharmos que é uma interioridade profunda, e que fala o nosso nome, e que é o nosso nome, esta é a grande sabotagem. Nós somos sabotados pelo nosso próprio Eu. Nosso maior inimigo é o nosso Eu.
Por que deixamos isso acontecer? Porque começamos a confundir a zona de passagem não com o acontecimento, mas com o acontecido. E esse acontecido era atribuído a nós, era atribuído ao outro. Cada acontecido que ganha uma atribuição como traço de caráter de cada desejo é, na verdade, a maneira como vamos criando tijolos e cimento para fazer o muro dentro de nós. Vamos produzindo camadas, empilhando essas camadas, criando o nosso buraco inicial e, a partir dele, vários outros vão sendo inoculados e tapados, inoculados e tapados, inoculados e tapados. O nosso desejo não para de ser esburacado, e ao mesmo tempo estratificado. Esburacado e estratificado. E assim vamos construindo a nossa história pessoal, a nossa origem, de onde viemos, o que estamos fazendo, para onde estamos indo, o que queremos no futuro. E criando o grande processo do desejo intencional. E perdemos a oportunidade de brincar com o Eu. Não mais se importar se dizemos o não-Eu. Mas, toda vez que dizemos “Eu” quando de fato reencontramos a superfície, reencontramos esse código de linguagem como código de passagem, o Eu se torna uma máscara, ele se torna uma presentificação. Ele se torna uma maneira, a presentificação de uma voz. Uma voz que acontece ali. E outra voz acontece ali. E outra voz, e outra voz. Atrás de uma voz, uma pluralidade de vozes. Atrás de uma paixão, uma pluralidade de paixões. Polifonia. Glossolalia. Multivocidade. Muitos sentidos do desejo que diferencia a nossa potência e que cria dobras dentro de nós, multiplica as nossas distâncias, fazendo com que nos tornemos cada vez mais diferentes de nós mesmos.
O Eu como zona de passagem, sim. Ok. Tanto faz dizê-lo ou não. Importa que, quando eu digo “Eu”, é apenas uma janela, uma porta, uma ponte que faz passar uma voz, um afeto, uma intensidade. E, no seu retorno, um acontecimento que preenche o meu corpo de potência, com uma nova intensidade, uma nova nuance do real, produzindo o inédito em mim. O Eu como zona de passagem. Ok. O Eu como zona de passagem pode, sim — não ele como uma forma, mas ele, como passagem, exprimir o nosso nome próprio. Mas aí não é mais o nome de um Eu. É o nome de uma intensidade. É o nome da nossa singularidade. A nossa singularidade é completamente diferente de um Eu. Agora, o Eu como zona de passagem é um brinquedo das singularidades. Não tem problema. Eu posso dizer e brincar com ele.
Quando alguém chega a um consultório, a uma clínica, ou seja lá em que condição for, buscando ajuda psicológica, psicanalítica, psiquiátrica para se reencontrar, para se reestruturar, eu vou investir em quê, exatamente? Em uma identidade que esse alguém perdeu? “O que essa pessoa é, o que ela poderia ser?”. “Olha, toma aqui ferramentas. Toma aqui recursos. Recursos linguísticos, recursos estruturantes, recursos personificantes. Recursos que vão te dar uma identidade.” É como dar Ritalina, é como dar antidepressivo, é como dar camisa-de-força química para o desejo. Não se fala em nome próprio quando se diz esse Eu, quando se busca esse Eu estruturado. E o que estrutura o nosso Eu? O que estrutura o nosso Eu é o que separa a nossa potência de pensar do nosso desejo. A nossa potência de usar os afetos. A nossa potência de usar o movimento do nosso corpo e do nosso desejo. É isso. O que produz esse Eu estruturado é a aderência a um modo subjetivo de usar a linguagem, a um modo significante de usar a linguagem. As maneiras subjetivas e significantes são, na prática, muito concretas, apesar de serem semióticas. Nós podemos acompanhar isso. Nós podemos ver o que acontece com a nossa vida quando fazemos isso de nós mesmos.
Essa desconstrução, você só a percebe no outro se você a faz em você também. Qual uso nós fazemos da linguagem? Quando usamos a linguagem de modo subjetivo, uma transformação incorporal a cada ato de linguagem está sendo produzida em nós. Se eu uso a linguagem de modo subjetivo, eu estou produzindo subjetividade em mim. Uma transformação incorporal é uma perspectiva do meu desejo, do meu pensamento. Uma transformação incorporal significante muda o horizonte e o objeto do meu pensamento, ela produz ideais. O uso significante produz valores, produz ideais. E o uso subjetivo? Produz capas para os buracos do desejo.
Isso é uma prática. Nós vivemos isso na prática. Então nós temos que encontrar esses lugares no dia a dia, no cotidiano. Como usamos a linguagem? Não basta apontarmos o inimigo fora de nós. E muito menos acreditar que ele está dentro de nós como nossa essência. Ele está no meio, ele está sempre à espreita, ele está se colando nos nossos vacilos. Onde vacilamos, onde estamos ausentes, onde não temos presença. Onde há ausência da potência, o poder cola. Então como nos apresentamos como potência de acontecer?
Basicamente, é isso. Nós precisamos vivenciar, experimentar uma Esquizoanálise. Se a Esquizoanálise ainda, pelos textos do Anti-Édipo, do Mil Platôs, e textos afins, é algo muito difícil de pensar — mas nós temos a nossa vida, que faz daquilo textos vivos, viscerais. Se você se coloca em acontecimento quando você encontra esses textos, você percebe que algo se passa com você. E você precisa aprender a criar as suas palavras, a criar as suas ferramentas. Não necessariamente acreditar em uma verdade pronta. Se eles usam termos difíceis ou complexos para nomear realidades complexas, eles não podem reduzir e simplificar para que entendamos. Temos que acessar essa complexidade, mas não acessamos complexidades se nós também não nos envolvermos, não entregarmos o nosso corpo, não nos pusermos em processo de acontecimento e de experimentação.
Foucault já dizia, o poder não está fora, não está em alguma instância, o poder se exerce. E não há poder que faça sentido senão se exercendo sobre outras forças. Nós somos forças de existir. O poder se exerce sobre nós. E nós também exercemos poder. Quando nós exercemos o poder? Como o poder se dá? No encadeamento dos signos na linguagem que fazemos. No encadeamento dos movimentos, da nossa sensibilidade, da nossa percepção, das nossas afecções. É assim que o poder se constrói. E isso se dá através da nossa experiência. Nós damos o nosso corpo para isso. E à medida em que damos o nosso corpo para isso, nós podemos experimentar e desconstruir.
Eu diria o seguinte: na Esquizoanálise, qualquer um de nós pode se tornar um esquizoanalista. Eu diria que, se eu tivesse que dizer em alto e bom som, bradar por todos os cantos do mundo qual a ocupação mais urgente desse momento que um ser humano deveria ter e pode ter, é se tornar um esquizoanalista. Mas o que é se tornar um esquizoanalista? Antes de tudo, é se tornar um guerreiro, um combatente. Um combatente do quê? O combate começa onde? O combate começa entre as nossas forças, e não contra um inimigo exterior, nem contra a nossa essência, porque na nossa essência só tem afirmação. Mas é contra aquilo que se inoculou em nós. É contra as formas de rebaixamento. O combate se dá entre as nossas forças porque há forças em nós que aderiram a esse rebaixamento. E há forças em nós, que são as mais interessantes, que estão caladas, silenciadas, separadas. São nossas forças de criar realidade. É esse combate que precisamos fazer. E, à medida em que fazemos esse combate, nós podemos ganhar de presente uma maneira livre de viver. E, nessa maneira livre de viver, você pode, sim, contagiar e praticar uma cura que não tem nada de magia, que não tem nada de trapaça ou charlatanismo. É um cuidado real sobre aquilo que se passa com o nosso desejo, com o nosso corpo, com o nosso pensamento, no uso do movimento, no uso dos afetos e no uso da linguagem. Nós podemos, sim, fazer isso.
Então, chamar a atenção para isso é fundamental. E felizmente a Esquizoanálise está se espalhando bastante. Há muita gente aí entrando, se movimentando, e ajudando a proliferar. E isso é algo que devemos celebrar, mas celebrar sempre com muito cuidado, porque não se entra nessa prática, não se adere a essa maneira de viver, de existir, de elevar a vida sem fazer a lição de casa, sem desconstruir, sem se embrenhar, sem se envolver profundamente na desconstrução das nossas prisões a partir das nossas cumplicidades. E aí sim, somos capazes de criar uma maneira de contagiar, de investir novas maneiras de se relacionar, novas maneiras de viver. Esse ponto é essencial.
Mas nós não podemos abrir mão do sujeito que nos assujeita em nós. Desconstruir esse sujeito e esse corpo dócil. O corpo dócil no sujeito moral. Com eles cai também o sujeito especulativo. E o que vai se colocar no lugar? Nada, porque esse lugar, principalmente, mais do que o sujeito ou do que o corpo dócil, o que deve ser destruído é o lugar do sujeito e o lugar do corpo dócil. O modo do assujeitamento, o modo da docilização. E se criar um outro topos do desejo, que é um desejo intensivo, que vai se distribuir em uma potência ética seletiva e em uma potência estética plástica, aberta. É isso.
Então não há que simplesmente se destruir o sujeito e pôr algo no lugar. Sobretudo, há que destruir o lugar. Demolir o sujeito é demolir o lugar do sujeito. É demolir o lugar do juízo. O juízo foi uma instância inoculada no coração do nosso desejo, para sabotar a nossa vida, fazer dela função de outra coisa. Isso é fundamental.
A Esquizoanálise vem e diz, “Não tem Édipo, ou qualquer outra forma de mistificação, individualizando a doença, a neurose, a psicose, a esquizofrenia, seja lá o que for”. Essa mistificação é, na verdade, um modo de se atribuir responsabilidade a uma instância que não deveria tê-la. Não é essa responsabilidade moral que deveríamos ter, porque a responsabilidade moral implica uma grande irresponsabilidade ética. É um descuido fundamental. Todo moralista é um irresponsável com aquilo que há de mais importante e interessante a ser cuidado na vida, que é o cuidado com a nossa potência, com a potência de cada um.
Isso é essencial: cuidar da nossa potência. Cuidar da nossa casa, cuidar do nosso corpo. Se cuidamos do nosso corpo, nos tornamos dadivosos, podemos dar, podemos gerar, podemos criar. E vamos nos alegrar também com a potencialização do outro. Vamos desinvestir uma sociedade que precisa das mediações da lei, da moral e do ideal. Nós vamos reencontrar uma zona realmente comunal, o nosso território, a nossa territorialidade, a nossa zona comum de acontecimento. Há uma zona comum que, mais que comum, é comunal, sem a qual a nossa potência não se diferencia e não cresce em intensidade, e não apreende novas e mais realidades, não se amplifica.
O comunal, que é uma superfície lisa, limpa, livre de estrias e de estratos, é algo urgente para se encontrar, além do chamado público, além do chamado coletivo. E muito além, obviamente, do Estado, porque o Estado é o primeiro sequestrador do comunal. Encontrar o comunal em estado puro, no horizonte de cada um de nós. E aí, se você encontra o comunal em estado puro no seu horizonte, não tem como você não fazer do Eu uma brincadeira de passar. Passa. Um Eu emerge, é mais uma passagem. Outro Eu emerge, outra ponte, uma janela, uma porta, uma linha, um furo, um intervalo, um entretempo, um interstício, uma fresta. Todos os Eus. Assim como Nietzsche chegou a dizer em um certo momento, “Eu sou todos os nomes da história”. Um corpo intensificado no mais alto delírio do campo social e cultural atravessando esse corpo, dizendo “Eu sou todos os nomes da história”.
Que delírio era esse? De que nível era? Era um delírio totalmente ancorado no campo intensivo. Os psiquiatras e psicanalistas erram profundamente quando dizem que delírios e alucinações vêm dos fantasmas. Mas de onde vêm os fantasmas, senão de intensidades abortadas? O delírio e a alucinação se ancoram imediatamente em campos intensivos. Se o delírio ou a alucinação são irreais, a intensidade é real. A intensidade é totalmente real. Então não adianta você simplesmente abortar os processos delirantes ou alucinatórios anestesiando esses processos. Você precisa encontrar as intensidades, tratar dessas intensidades, se relacionar com essas intensidades, dizer “bem-vindas” a elas. Dar a mão para elas, brincar com elas e dizer “Ora, ora, onde estávamos esse tempo todo? Que bom é ouvir vozes. Que bom é encontrar essas zonas intensivas que criam vários nomes e brincam de dizer, de flutuar, de delirar e até de alucinar.”
De onde veio essa prepotência para limitar o princípio de realidade? Há, na verdade, um princípio de atolamento. O princípio de realidade dado pela psiquiatria e seguido pela psicanálise e pelas psicologias nada mais é do que um princípio de atolamento da condição humana rebaixada. Então nós temos que deixar de ser humildes. Bergon brincava com Kant e dizia assim, “Nossa, a razão humana, o pensamento humano é tão ousado com Platão, com Aristóteles, com Descartes, fizeram tantas peripécias e, de repente, com Kant se torna tão humilde que incorpora os seus limites. E aí abriu mão daquilo que realmente era: uma realidade sutil, com o campo das intensidades, o infinito das intensidades, o infinito do campo de forças”. E dizia: “Não, nosso conhecimento é limitado para acessar isso”. Bergson não abre mão. Bergson diz “não”. “Se vocês desistiram, eu não.”
Nós não podemos desistir. Se alguém diz assim, “Isso não existe”. “Isso está confutado”. Talvez só aquele ser esteja confutado, porque ele não consegue sair do seu buraco. E Lacan dizia, “Nós sofremos de uma incurável insuficiência de ser”. Mas quem sofre da incurável insuficiência de ser? Não é apenas esse que não consegue ver além do seu buraco? Por que nós não saímos do nosso buraco negro? Porque nós perdemos a superfície. E por que perdemos a superfície? Afinal, o que é a superfície senão esse horizonte que envolve a todos nós? Essa zona de passagem e de acontecimento. Porque o acontecimento não é mais real. Mas o que pode haver de mais real do que isso que a gente não pega, como o tempo? E o acontecimento é da mesma natureza que o tempo. O acontecimento é tempo. Não há vida que não esteja atravessada, produzida, processada, fabricada pelo tempo. E por que o acontecimento se tornou um mero acidente e perdeu sua essência? E se tornou um mero acaso e perdeu sua necessidade? Se tornou um mero devir ou passagem efêmera e perdeu sua consistência? Porque nós nos separamos do que podemos. Então é preciso retomar.
A Esquizoanálise é isso: ela não se concilia. Ela não se conforma. Ela não precisa fazer concessões. E, por isso mesmo, nos tornamos muito mais plásticos e flexíveis. Flexíveis no sentido de que toda a diferença enquanto diferença pode ser afirmada. Não é a flexibilidade de dizer assim, “Ah, aquilo que está impotente, vamos dar uma chancezinha para o impotente se tornar fascista, e para o fascista negar a vida do outro?” Não, não. Nós devemos ser intolerantes com os fascistas, com os nazifascistas, com os impotentes e com aqueles que se servem das paixões tristes, sobretudo. Os poderes que estão aí cinicamente se servem do bolsonarismo, por exemplo, que é quase uma piada entre nós. Mas o bolsonarismo é essas forças que sempre estiveram aí e que de quando em quando estão aí, aparecendo, dando as caras, saindo do armário. Não vão parar de sair do armário. Não vão parar de dar as caras. Não vão ter vergonha na cara de mostrar essa baixeza, essa insuficiência, querendo impor a tristeza a todos nós. A essa tristeza nós devemos mostrar, contrapor, um modo alegre de viver. Um modo pleno de viver. Nós podemos dançar, cantar, voar, fluir, inventar, sem perder tempo, ou dar trela, ou dar combustível para as forças diabólicas dos poderes tristes.
Vamos dizer um “Não”, ao modo de Nietzsche. Vamos dizer um “Não” com desvio de olhar. Que o nosso “não” seja um desvio de olhar. Que o nosso olhar aprenda a ver tudo sob o ponto de vista da necessidade, e que a necessidade esteja no coração da diferenciação da potência. O que é mais necessário e mais útil à vida, senão a afirmação da potência em cada um de nós? Essa sim, é curadora, porque essa não precisa oprimir, essa não precisa subjugar, essa não precisa explorar, essa não precisa matar. Afirmar a potência é criar dádiva, gerar dons. É o contrário do empoderamento. Então nós podemos fazer isso, sim.
No nosso próximo encontro, nós vamos cuidar dos circuitos intensivos de desejo e do uso micropolítico dos afetos. Nós vamos falar também, na terceira aula, do inconsciente maquínico. Prometemos isso. Vamos falar também do corpo sem órgãos. E por que o corpo sem órgãos? Porque o corpo com órgãos e o corpo sem órgãos vão, aparentemente, gerar… Nesse processo de apreensão do corpo sem órgãos vai se apreender o corpo esburacado, o corpo cancerígeno, o corpo esvaziado, e a proliferação das doenças, da depressão, da angústia, da esquizofrenia, da paranoia, enfim. Vamos ver como acontece a sabotagem do corpo de potência, que investe uma desorganização e acaba por se esvaziar. E depois a retomada disso na quinta aula, no quinto encontro, de um corpo pleno de potência, com um pensamento criador de realidade. Nós vamos fazer isso.
E isso, eu vou novamente situar isso tudo do ponto de vista daquilo eu venho falando nos nossos encontros anteriores, nos cursos de Introdução à Esquizoanálise que eu dei nos anos anteriores. A partir disso que nós criamos ­— inspirados, claro, na obra de Deleuze e Guattari —, que nós chamamos de as quatro grandes zonas de passagem. O que são essas zonas? São zonas pelas quais o nosso modo de desejar passa na existência. Necessariamente, nós, desde bebês, atravessamos essas zonas. Desde bebês nós temos a terceira zona, que é a superfície, que é a zona de passagem lisa e pura, livre de formas prévias. Mas logo, como o ser frágil que nos constitui nessas idades, somos sistematicamente esburacados, e caímos na primeira zona, que nós chamamos de primeira captura, e a própria sociedade ou o braço social vai nos ensinando, nos instruindo a aderir à segunda captura, que é a segunda zona de passagem.
Nosso desejo cai pela primeira vez, é a passagem por uma queda. Depois, ele cai pela segunda vez, mas nós não temos essa visão de queda, nós acreditamos que ele está se elevando, que é o que nós chamamos de empoderamento. O empoderamento é uma grande armadilha. Depois, se conseguimos fazer a lição de casa, damos um passo atrás em relação ao empoderamento. Também descobrimos as nossas cumplicidades em relação à primeira captura. Então desfazemos a segunda e a primeira captura para retomarmos a nossa potência, fazer com que a nossa potência saia do buraco e suba novamente à superfície, e reencontre essa terceira zona de passagem. E, ao reencontrar essa terceira zona de passagem, nos tornemos novamente uma potência de acontecer. Isso acontece quando ultrapassamos o ideal, o universal, o legal, o normativo, o Eu, e encontramos o comunal, de um lado, e o singular, de outro. Aí isso tudo sobe à superfície. E sobe à superfície de uma maneira tal que reestabelecemos os circuitos intensivos de desejo. E, dessa maneira, produzimos realidade ou a quarta zona de passagem: aprendemos a nos diferenciar. Aprendemos a criar valor.
Essas quatro zonas de passagem, eu vou voltar a situá-las nos nossos próximos encontros. É uma maneira, ao nosso ver, necessária e que gera muitos recursos para que façamos a nossa lição de casa. Então eu queria deixar isso cada vez mais claro e disponível para cada um de vocês que está aqui acompanhando este processo.
Eu sei que não é nada fácil, mas não é fácil, como já dizia Spinoza no final da Ética, nos libertarmos. Se fosse tão fácil, como estaria ao alcance de tão poucos até agora? Mas por que tem de estar ao alcance de tão poucos? Temos que nos pôr fazendo, temos que nos preparar e nos pormos já, desde agora, nessa preparação para começar essa desmontagem de nós mesmos, mas uma desmontagem, uma demolição do nosso sujeito, do nosso Eu, com prudência.
Muitos dizem assim: “Ah, não sei o que fazer da vida”, “Ah, talvez minha vida seja inviável”, “Ah, penso até em suicídio”. Mas quem nós devemos suicidar é o nosso Eu, e não a nossa vida. É o nosso Eu que deve ser demolido. Ou melhor, o nosso Eu deve virar parque de diversões, zona de passagem. Não devemos mais dar importância para o Eu. O Eu deve ser apenas uma maneira de falar. Como dizem Deleuze e Guattari, no início do Mil Platôs, nós dizemos “Eu” assim como dizemos “O sol se levanta”. É apenas uma maneira de dizer. Chegar ao ponto não de não mais dizer o Eu, mas de não ter a menor importância quando dizemos ou não dizemos o Eu. É isso.
Então é isso, eu queria de novo fazer esse convite para esse cuidado, essa demora. É difícil? É difícil, mas se nos pusermos fazendo, nós conseguimos, nós chegamos lá, nós desconstruímos. Então há, sim, um jeito de desconstruirmos as prisões em nós, para quê? Para reencontrarmos as nossas forças e deixarmos de nos queixar, deixarmos de acusar, deixarmos de ser passionais e reivindicativos. Nós somos passionais — passivos, portanto — e ficamos reivindicando direitos. Mas para quem nós vamos reivindicar direitos? Não há direito que se sustente se nós não conquistarmos o nosso campo de forças. Não há nenhuma forma que se mantenha por ela mesma. Só se acreditássemos em um deus fictício que mantivesse aquela forma lá. Mas o deus fictício, nós vemos o tempo inteiro as suas pernas sendo quebradas. Nietzsche já dizia, “os ídolos que aprendam o que é ter pés de barro sob o meu martelo”. Nenhuma forma resiste se não houver uma força por trás. Então, já que tem que haver força, então por que não qualificar essas forças? Reencontrar as nossas forças ativas, fazer com que elas se tornem dominantes no horizonte da nossa existência e da existência de cada um.
Eu estou já um pouco cansado. Como eu disse no início, não estou com a minha vitalidade toda, porque ainda estou recobrando a minha saúde depois desse embate, desse combate com o coronavírus, mas no nosso próximo encontro, domingo que vem, dia 26, eu acredito que estarei em plena posse das minhas forças e faremos um encontro ainda mais interessante, mais potente, mais alegrador. Eu queria então agradecer a presença de todos, muito carinhosa. Eu vejo aqui que tem muita, muita gente se manifestando no chat. Eu prometo que eu vou ler tudo com muito carinho. Eu vou ter a maior alegria em ver. E de novo queria dizer para aqueles que fizeram questões e eu não pude ler e contemplá-las aqui, eu vou ler e vocês podem também mandar questões pelo e-mail da Escola Nômade: [email protected] Tá bom?
Então agradeço demais a presença de todos. De novo quero renovar os meus votos de alegria. É sempre muito alegrador, fico muito contente que tenha tanta gente bacana aqui para investir nessa nova maneira de viver, como algo que é, na verdade, a criação de um futuro na prática, real. Não é um mero sonho, não é uma mera utopia. É uma fabricação de lugar, de acontecimento e de maneira de viver aqui e agora, para criarmos um grande movimento comunal, comunidades que não precisam mais da tutela do Estado, da lei, de nenhum ideal de verdade, mas se compõem no encontro imediato das potências que querem se diferenciar e festejar a alegria da vida, que é um processo tão extraordinário. Celebrar essa vida, essa dimensão extraordinária da vida que atravessa cada um de nós.
É isso. Beijos e abraços a todos, a todas, e nos vemos no próximo encontro. Um grande beijo, um grande abraço.

Transcrição por Gabriel Naldi