Curso de Introdução à Esquizoanálise em 2022 (Transcrição – aula 2)

Inconsciente Maquínico

26/06/2022

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[Luiz Fuganti]: Boa noite! Boa noite, gente. Tudo bem com vocês? Já tem muta gente aqui. Olha quanta manifestação. Muito bom estar aqui de novo. Hoje vamos dar sequência ao nosso primeiro encontro, e falar sobre inconsciente maquínico. Imagino, tem bastanta gente aqui se manifestando, dando boa noite. Boas-vindas a todos, a todas. É uma alegria muito grande estar aqui com vocês, e espero que o nosso encontro de hoje seja bem bacana, bem produtivo. Tenho certeza que será.
Vamos falar de um tema bem nevrálgico nessa área da saúde mental, que é o inconsciente. O inconsciente para a Esquizoanálise, que tem uma versão tão especial —não é exatamente uma versão, é a apreensão de uma dimensão que ultrapassa em muito a imagem que se faz do que seria o inconsciente.
Nós, no nosso primeiro encontro, falamos sobre o Eu como zona de passagem e a demolição do sujeito. Foi um encontro introdutório para marcar bem a posição da Esquizoanálise e da filosofia da diferença no que tange essa instância de interiorização do humano, que nós denominamos por vários nomes — por “Eu”, “sujeito”, “consciência”, “espírito”, “alma”, enfim. E até, sem dúvida, depois da psicanálise, introduziu-se a dimensão do inconsciente na entidade mental. A mente seria portadora de uma dimensão inconsciente. Claro que não precisou da psicanálise para se saber disso, mas a psicanálise deu um tom muito específico, uma tonalidade muito específica a isso que se denominou “inconsciente” depois dela.
Hoje nós queremos falar dessa maneira como entendemos o inconsciente. O inconsciente como uma realidade maquínica, e esse termo pode produzir muitos mal-entendidos, então vamos tentar esclarecer ao máximo essa questão, porque é uma realidade que produz realidade. Essa é uma diferença radical em relação ao desejo e o inconsciente apreendidos pela visão psicanalítica, que geralmente liga a uma produção fantasmática o inconsciente e o próprio desejo.
Queria dizer, antes de tudo, que nós estamos cada vez mais envolvidos, implicados na divulgação, na propagação e na produção de um contágio que, ao nosso ver, é essencial e é do nível da política do desejo. Obviamente que não tem nada a ver com política de Estado, com políticas públicas, com política partidária, com política privada). Tem a ver, obviamente, com uma dimensão micropolítica do desejo que envolve a conduta da própria vida.
Nós focamos, no primeiro encontro, na importância de deixar de apontar o dedo, deixar de se relacionar com o bem e com o mal como uma forma de exterioridade que salvaria a nossa interioridade decaída, para nos centrar em um entre, um entretempo, um intervalo de movimento, uma zona que é um interstício onde as maneiras de viver, de sentir, de agir e de pensar é que têm a primeira palavra, o primeiro foco, o primeiro pensamento, o primeiro movimento. Elas assumem o protagonismo. O protagonismo da nossa vida só pode acontecer quando acessamos essas maneiras de viver. E percebemos que somos cúmplices das maneiras de viver às quais estamos engajados. E que podemos, eventualmente, desinvestir essas maneiras de viver e inventar novas maneiras. E que isso está essencialmente nas nossas mãos.
Isso está, essencialmente, a partir da apreensão do horizonte que nos envolve e que nos constitui, o horizonte como uma zona de passagem. Está disponível para que possamos, acessando essa dimensão, encontrar as próprias forças e produzir, à nossa maneira, uma maneira que, nessa medida, só pode ser uma medida singularizante. Singularizante de efetuar a potência, de diferenciar a potência, de produzir a si mesma. Uma maneira singularizante à qual nada falta. Não falta nada ao modo do desejo que se efetua a partir dessa singularização. Mesmo porque essa maneira só é apreendida quando encontramos o imediato do real, o imediato de uma zona de passagem na qual os encontros da nossa existência se dão necessariamente. E, através dessa zona de passagem, nós produzimos realidade como maneiras de existir e, mais do que tudo, produzimos a nós mesmos.
Nós não faremos nada socialmente, politicamente, economicamente, culturalmente, enquanto não percebermos que o essencial para que alguma coisa mude realmente é começar por nós mesmos. É começar por praticar uma desconstrução daquilo que nos tornamos. Por quê? Por que o que nos tornamos ao longo de milênios, e das últimas centenas de anos, ou das últimas décadas, a partir do século 19 e 20, é algo que inviabiliza a apreensão do real, à medida em que o real acontece em uma dimensão imediata de nós mesmos.
Nós estamos, de alguma maneira, cegados pelo nosso próprio modo de viver. E esse nosso modo de vida que nos impede de ver, que nos impede de elevar o pensamento à sua mais alta potência, elevar o movimento intensivo do corpo à sua mais alta potência, elevar as capacidades criativas das forças de humanidade em nós à sua mais alta potência, essa nossa maneira de viver que nos impede, portanto, de ter o acesso imediato a esse plano de realidade é a maneira dominante que deve ser desconstruída. É a nossa tarefa crítica.
E, desse ponto de vista, nós detectamos e constatamos uma dupla tarefa crítica. A primeira, que visa a desconstrução de uma maneira e de um uso que fazemos daquilo que nos acontece. Nós, uma vez que somos realidades em relação, potências em acontecimento, o que nos acontece põe em variação e desloca aquilo que nos faz viver. E, ao pôr em variação e deslocar essa força de existir que nos constitui, também nos separa daquilo que podemos, segundo o uso e, poderíamos já afirmar aqui, mau uso que fazemos daquilo que nos acontece de bom ou de mau. Essa desconstrução é extremamente necessária. Aliás, ela é absolutamente necessária para quem quer reconquistar a plenitude da vida, de um desejo sem falta e de um inconsciente que produz realidade. Ela é absolutamente necessária e urgente, porque a vida se faz no presente, se faz aqui e agora.
A nossa vida é aqui e agora. Não vamos esperar que a sociedade mude. Não vamos esperar o futuro da revolução. Não vamos esperar que um dia a humanidade tenha atingido um nível tal de evolução, para aí a vida, nesse momento, se tornar. A vida de cada um de nós é aqui e agora. E é aqui e agora que nós podemos fazer isso. Daí a urgência e a necessidade, porque, sem isso, nós não nos ligamos àquilo que nos constitui, às forças de humanidade em nós, que nos fazem existir e que podem nos fazer existir do modo mais pleno, como não apenas uma potência de acontecer, mas uma potência de acontecer criando realidade. E criando a realidade que nos preenche e nos torna plenos, com um corpo pleno, uma mente plena, um modo desejante pleno, sem faltas. Só retomando a nossa potência de criar.
E isso está disponível e não está acessível. Por que não está acessível? Não está acessível porque nós estamos separados do que podemos, de nós mesmos, pelo nosso próprio modo de existir. Então, a primeira dimensão crítica é essa: fazer um uso diferente do que nos acontece, para que, em vez de nos separar daquilo que podemos em função do mau uso, do mau jeito que temos na existência e do mau uso que fazemos daquilo que nos acontece, do mau uso do bem e do mal, possamos fazer um uso interessante do que nos aconteça, não importa se aconteça uma diminuição da nossa potência de existir ou um aumento da nossa potência de existir. Fazer um bom uso do bem e do mal que nos acontece está em nossas mãos. Nossa primeira crítica, então, se volta para isso.
Nossa segunda crítica se volta justamente para desinvestir uma saída que nós denominamos como “trapaceira”. Uma saída que no fundo é um subterfúgio. Uma saída que no fundo é uma compensação que nos denominamos como “empoderamento”. E por que essa palavra “empoderamento”? Porque ela, ao mesmo tempo em que é utilizada de modo a gerar vários equívocos pelas minorias e pelos movimentos sociopolíticos atuais, não consegue se libertar do elemento entristecedor e produtor de miséria que envolve qualquer tipo de poder. Nós fazemos uma distinção clara entre poder e potência, e, portanto, entre empoderamento e potencialização.
Então, a segunda dimensão crítica fundamental que nos libera das capturas atuais do nosso corpo, do nosso desejo e da nossa mente, das nossas maneiras equivocadas de existir, é, portanto, a crítica a esse movimento que nos levaria a nos empoderar, como uma espécie de compensação, a um modo de vida falhado, a um desejo que é tido sempre como falta, como insuficiente, que busca um objeto que o preencha, e a uma necessidade, também fraudulenta, de constituir um sujeito que estruturaria o nosso desejo, que por sua vez seria demasiado selvagem, demasiado desarranjado, demasiado sem forma. Essa dupla desconstrução, esse duplo aspecto crítico é fundamental para que possamos ver novamente sem sombras, para que criemos lentes de ver e apreender o imediato, e não só perceber, de alguma maneira, o imediato do movimento que constitui toda a corporeidade em nós, o imediato do tempo que constitui toda a espiritualidade e pensamento em nós, com seus seres de tempo que geram mais potência em nós. E então perceber que essa dimensão está disponível, como também é acessível.
Acessar essa dimensão é acessar aquilo que nós chamamos de superfície, ou de plano comum dos encontros, ou de zona de passagem — que nós começamos a esboçar levemente quando falamos sobre o Eu como zona de passagem. O Eu como zona de passagem é apenas uma maneira sutil de começar a tocar essa superfície, porque todo Eu, na verdade, é um elemento de exterioridade, mas essa exterioridade pode simplesmente estar entre o Eu e o outro. Ela pode ser simplesmente uma zona de passagem. Aí sim começaríamos a tocar e a perceber de que é feita a superfície.
Vocês devem ter já me ouvido falar sobre as quatro zonas de passagem do desejo. O desejo que emerge de uma potência que se diferencia; o desejo como o caminho de diferenciação da nossa potência ou da nossa zona potencial. O desejo então que diferencia e atualiza essa potência, criando diferença, criando realidade. Esse desejo eventualmente passa por uma primeira queda, que é aquilo que nós chamamos de primeira zona de passagem. A primeira grande zona de passagem é a queda do desejo, quando o desejo confunde a sua potência de acontecer com o acontecido dele mesmo. E o acontecido dele mesmo, que necessariamente é uma redução da sua potência de acontecer, toma o lugar da potência de acontecer. Há uma inversão: o acontecido se torna mais importante do que a própria potência de acontecer. A potência de acontecer vai ficar a reboque do acontecido. E, nesse sentido, vai haver uma primeira queda ou transmutação do desejo, que vai ligá-lo a uma falta, a um buraco a partir do qual vai se iniciar a bizarra aventura humana de um desejo intencional, de um desejo que busca agora uma finalidade, que busca novamente a potência que ele perdeu, da qual ele se separou. E a potência da qual ele se separou é confundida com ideal ou com um poder. E quando o desejo busca o seu objeto, ou ele se confunde com esse ideal, ou ele se confunde com esse poder. Mas não vai haver poder nessa vida, não vai haver ideal nessa existência que vá preenchê-lo efetivamente.
E aí começa a saga de um desejo intencional, que necessariamente vai precisar trapacear na existência para poder supostamente se realizar, se completar e compensar a sua miséria existencial.
E, evidentemente, a segunda transmutação é quando esse desejo decaído supostamente conquista uma instância exterior que garante para ele essa compensação. Então aqui haveria uma segunda mudança. É como alguém que se torna humilde demais. O que é o humilde? Humildade, segundo Spinoza, é uma paixão triste. A humildade supõe uma baixa estima — que na verdade seria uma subestima, uma estima de si que o faz menor do que realmente se é. A humildade como uma espécie de humilhação de si. Esta é a primeira queda.
A segunda queda dá a ilusão de uma potencialização. Ilusão porque, na verdade, o que se imagina ser potencialização é um empoderamento, e esse empoderamento preenche o desejo de uma alegria que pressupõe uma tristeza originária. É um orgulho que deriva da humildade, e que leva para uma espécie de arrogância. Esse orgulho, que é mesclado com arrogância e com empoderamento, opera uma segunda transmutação do desejo. A rigor, não poderíamos nem chamar isso de transmutação. Deveríamos chamar de a primeira separação do desejo do que ele pode e a segunda separação do desejo do que ele pode, pois na verdade são transformações, são deslocamentos, são esburacamentos do desejo. Essas transformações, uma vez consolidadas, nos distanciam e muito da nossa potência de acontecer que cria realidade. A fraude se potencializa, digamos assim, quanto mais nos empoderamos. Quanto mais nos empoderamos, mais o buraco dentro de nós cresce até virar uma cratera. Uma cratera de dimensões tais que nós não percebemos que estamos dentro dela, porque não percebemos mais os seus limites.
E haveria, depois dessas bizarras aventuras do desejo, do corpo e do pensamento humanos, uma oportunidade? Uma ocasião para que reencontrássemos a dimensão mesma que nos devolveria a plenitude? Que nos devolveria o imediato do real sem as mediações da representação? Sem as mediações de uma vida separada do que pode? Teríamos essa oportunidade?
Essa oportunidade pode acontecer por vários motivos — inclusive a partir de tragédias, de desencontros, ou da percepção de que a vida começa a definhar e decair em uma ladeira sem volta, e no desespero pode ser que algo se passe e se transmute.
Há uma passagem de Assim falou Zaratustra, de Nietzsche, sobre as três metamorfoses do espírito, que é o primeiro fragmento da primeira parte dessa obra, na qual Nietzsche vai dizer que o espírito se torna camelo. E, à medida em que se torna camelo, ele tem uma aventura niilista até um limite tal que o desejo começa a morrer de inanição. Como um camelo, no deserto, morrendo de sede, de fome, de frio, enfim, morrendo de falta de acontecimento. E nesse momento o camelo pode se tornar leão. E é justamente o que nós chamamos de terceira passagem. Essa terceira passagem é quando nos tornamos leões e somos capazes de dizer “não” a essas duas primeiras quedas do desejo. “Não” ao mau uso que fazemos do bem e do mal que nos acontece, e “não” também a uma forma de compensação ou de empoderamento. E, nessa mesma medida, dar passos atrás, desinvestir o plano de empoderamento, o plano de reconhecimento, o espelho social, largar o osso e fazer um outro uso daquilo que nos acontece. Nesse momento é possível reencontrar a superfície.
E, reencontrando a superfície — que não é a terceira zona de passagem, era a que estava presente no início, desde o começo, mas estava presente de modo embotado, de modo opacizado. Ela era opacizada pelo nosso mau jeito, pela nossa maneira de existir separada e através de mediações. As próprias mediações tornavam essa superfície opaca. Uma vez que descontruímos essas mediações do corpo, da mente e do nosso campo afetivo, essa superfície começa a aparecer na sua imediaticidade, na sua pura zona de passagem sem nenhuma forma prévia, sem forma do corpo ou do movimento; sem forma do tempo, da duração ou do pensamento; sem forma das paixões ou dos afetos, mas como pura zona de passagem.
E essa terceira zona de passagem que, na verdade, é a que estava aí desde o início e estará sempre, é a condição para que apreendamos o que denominamos “inconsciente maquínico”. Deleuze e Guattari denominaram dessa maneira, mas eu vou fazer aqui uma investida um tanto diferente. Vou fazer caminhos e percursos que possam deixar isso mais claro em uma aula como essa, com o tempo limitado que temos aqui.
Essa terceira zona de passagem, que é o reencontro com a superfície, nos devolve também a visão do que é o inconsciente como fábrica de realidade. O inconsciente como produtor do real. O inconsciente que, na verdade, nada tem a ver com a representação ou com um teatro dramático humano, seja ele envolvido pelo drama, seja ele tocando uma certa dimensão trágica. Mas, ao modo de um teatro, ele nunca consegue ultrapassar o drama. Ele permanece no drama mesmo quando ele fala em tragédia — como, por exemplo, a tragédia de Édipo, a tragédia de Hamlet etc.
Eu queria situar inicialmente esta questão. Nós decidimos falar, no primeiro encontro, de um Eu como zona de passagem, justamente para desentranhar, desenterrar esse Eu que é fruto de um atolamento, esse Eu que é fruto de uma interiorização de limite. Esse Eu que é fruto do esburacamento do nosso desejo. O Eu como zona de passagem é como que a retomada da realidade de um código de linguagem que toca, de alguma maneira, a nossa potência de acontecer — portanto, uma potência em relação. E é sempre na relação que aparece a expressão do Eu. A expressão do Eu, então, na relação, se torna uma zona de passagem, uma maneira de passar, uma maneira de acontecer, uma voz que nos atravessa. E na superfície onde ela se manifesta é que nós percebemos também como ela maquina ou produz realidade. Então, essa dimensão da potência em acontecimento, da potência em relação maquinando o real, produzindo o real.
Nós sempre, ou de modo dominante, relacionamos o inconsciente àquilo que carecia de uma consciência. Inconsciente como uma denominação negativa da consciência. Não é à toa que, em psicanálise, depois da própria obra de Freud, a obra de Lacan investe em algo no desejo que falta ao desejo, que é a sua estruturação constitutiva do próprio sujeito, que se dá através do uso da linguagem. É como se ao inconsciente, ou ao desejo em sua dimensão inconsciente, faltasse o sujeito. Lacan se exprime, inclusive citando o seu enunciado em alemão, dizendo a seguinte fórmula: Wo es war, soll ich werden. Wo es war, “onde o inconsciente está”; e soll ich werden, “deve o sujeito advir”. Wo es war, soll ich werden; deve o Eu advir, o Eu como sujeito.
Então falta o sujeito ao modo inconsciente de desejar, segundo essa versão lacaniana. Mas não é diferente da versão freudiana. Com algumas variações, o que importa é que, de alguma maneira, a psicanálise define o inconsciente como uma entidade à qual faltaria a consciência, faltaria o sujeito.
Nós temos uma visão inversa, até porque o que as psicanálises… Claro, aqui eu gostaria de lembrar sempre o seguinte: quando eu falo em psicanálise, ou psicanálises, estou falando das interpretações dominantes, que estão alinhadas com a necessidade de uma produção, de uma construção, de um investimento, de uma formação de um sujeito moral dentro de cada um de nós. É disso que estou falando. Sempre há aqueles que dizem “Ah, mas nem todo psicanalista…”, “Nem todo psicólogo ou psiquiatra vai ter esse tipo de prática”. Bom, menos mal. Ainda bem. Ainda bem que há movimentos na própria psiquiatria, nas psicanálises, nas psicologias que vão na contramão disso que é dominante. E é disso que se trata. Nós não queremos, aqui, formar guetos, escolas ou simplesmente atribuir uma verdadeira clínica a esta ou aquela nomenclatura. O que nos interessa é o pensamento e a maneira de praticar, de fabricar a própria realidade. E aí os nomes que se dão a isso são até secundários, em certa medida. O que importa é o que pensamos e praticamos, e o que a vida se torna sob esse pensamento e essa prática. É isso que nos interessa.
Quando eu falo que a psicanálise faz isso ou faz aquilo, eu estou falando da psicanálise ou das psicanálises dominantes, que são, de alguma maneira, funcionárias de Estado. Estão aí a serviço de um sujeito moral que, a nosso ver, é sempre uma fraude, sempre uma trapaça.
Quando dizemos que na psicanálise, mesmo em Freud, aquilo que se chama de recalcamento primário, e em um segundo momento, de recalcamento secundário, ao nosso ver é o próprio inconsciente da psicanálise, ou dessas psicanálises dominantes. O que se chama de inconsciente, na verdade, é uma realidade recalcada, e que traz a negatividade de uma visão caótica e selvagem que se oporia à civilização e que deve ser recalcada, que deve ser reprimida, à qual não deve se permitir o livre curso. Isso não tem nada a ver com o que a Esquizoanálise chama de inconsciente. O que a Esquizoanálise chama de inconsciente não é uma realidade que necessariamente deveria permanecer recalcada ou eventualmente se exprimir segundo certas submissões, segundo certas conciliações, segundo certas negociações. Não é isso.
O que a Esquizoanálise chama de inconsciente é algo que ultrapassa a própria oposição vida e morte, e aqui muita gente confunde, inclusive pensadores mais ou menos ilustres, que atribuem um certo vitalismo a Deleuze e Guattari e a certos pensadores da diferença, acreditando que há uma redução do real à própria vida. Não devemos nunca esquecer que, desde Spinoza — se formos mais longe, encontraremos isso também nos pré-socráticos, nos estoicos gregos, em Epicuro e Lucrécio, em alguns pensadores ligados a essa linhagem nômade, um ultrapassamento da dicotomia vida e morte. E esse ultrapassamento só pode se dar em direção a uma realidade que nós denominamos de potência. Spinoza já chamava de potência, e é sempre potência em ato, por isso que é real e não meramente um campo de possibilidades, e Nietzsche vai chamar de vontade de potência. Assim como Bergson, de alguma maneira, ao seu modo, vai chamar de elã vital, mas o elã vital que faz com que a própria vida se diferencie e ultrapasse o próprio vitalismo.
Então há uma potência por debaixo de toda a vida. Não existe vida sem potência. Ao contrário, existe potência sem vida. A vida é um modo da potência. É por isso que a morte não é necessariamente uma abolição do real. A morte é uma zona de passagem. Antes de tudo, é um modelo de passagem. Há a necessidade dessa visão, uma visão que ultrapasse a dicotomia vida e morte. É a potência que ultrapassa essa dicotomia. A vida é um modo da potência, portanto. E o inconsciente maquínico necessariamente se liga a essa zona potencial da vida. São seres de potência que atravessam todo o vivo. E esse elemento é essencial para ultrapassarmos inclusive uma dicotomia que aparece aparentemente como um mal-entendido, que pode ser desfeito rapidamente quando pensamos que há um inconsciente maquínico, que há, por exemplo, de um lado, desejo nas máquinas; e, de outro lado, maquinação no desejo. Essa relação não é meramente exterior. Essa relação é intrínseca, ela é uma relação que acontece por dentro dos próprios elementos. Existe desejo na matéria e matéria no desejo. Assim como existe maquinação no desejo e desejo na maquinação.
E por que estou falando isso tudo? Por que é tão importante esse conceito de inconsciente maquínico? Porque o Anti-Édipo, apesar do título da obra ser crítico, obviamente, já que emerge para se contrapor à edipianização do mundo moderno e contemporâneo, uma edipianização furiosa que, na verdade, acontecia na esteira da maquinação da formação capitalista, e que a psicanálise vem simplesmente reiterar, referendar um modo de separar a vida do que ela pode, investindo em um preposto de poder sem o qual a formação capitalista e capitalística não se estabelece.
Eu já dizia, no nosso primeiro encontro, que essa nossa formação inventou o modo mais aprofundado de assujeitamento do desejo. Assujeitamento porque é o desejo que imagina operar livremente, se ligar livremente a certos objetos que no fundo o tornam refém de um poder exterior. Fazem dele função de um poder exterior. E esse assujeitamento também era a maneira mais eficaz, e é a maneira mais eficaz, mais interessante, para que uma economia política do controle coloque o policial, o delator, o controlador dentro de nós. Mais do que investir em câmeras exteriores ou vigilância externa, o controlador está dentro do controlado. Esta é a eficácia maior.
A psicanálise e seu movimento de edipianização estavam nessa mesma esteira. Estão nessa mesma vibe, digamos assim, nessa mesma vibração. Esse aspecto é fundamental. E isso fez também com que o conteúdo do inconsciente psicanalítico desse margem a interpretação — o que o Anti-Édipo, de modo impiedoso, vai chamar de uma “interpretose desenfreada” do desejo. E há uma contraposição. O Anti-Édipo se insurge contra essa interpretose generalizada que se dá a partir de sujeitos supostamente estruturados ou bem-formados que vão buscar os conteúdos traumáticos no interior dos complexos desejantes. E, claro, isso é sempre feito a partir de uma retroprojeção, a partir de uma ilusão de um desejo e de uma vida submetidos às suas marcas, aos seus acontecidos, aos empilhamentos de extratos que vão se interiorizando, se empilhando e construindo uma história pessoal de cada um. A identificação disso na origem, como uma falta que necessita ter uma normatização, uma normalização que é a naturalização do próprio complexo de Édipo. É a naturalização do neurótico, digamos assim.
A Esquizoanálise se insurge contra esse movimento de interpretação e vai dizer que o inconsciente é maquínico, ele maquina porque ele funciona e, ao funcionar, ele não só funciona, mas produz. E, ao produzir, ele também se autoproduz, ele também se autoforma, ele não é apenas funcional. Esse aspecto é difícil de se entender em uma primeira abordagem, para quem nunca ouviu falar disso, mas é algo importante a ser destacado. Claro que precisamos de outras condições para desenvolver isso. Este nosso tempo aqui é exíguo para isso, mas é suficiente para apontar esse caminho, para apontar um caminho de pesquisa necessário para quem realmente tem interesse em fazer a desconstrução das suas prisões, reencontrar suas forças e reinvestir em uma nova maneira de acontecer. Uma nova maneira de existir, criando realidade, fazendo a diferença, criando valor. Então é isso o que nos interessa: uma micropolítica do desejo, ativa, afirmativa e criadora de realidade. É importante destacarmos esse aspecto.
Por que, no Anti-Édipo, por exemplo, eles usam tanto o termo “máquina”? Máquina, no Anti-Édipo, não quer dizer mecanismo ou algo mecânico. Não é uma dimensão mecânica à qual seria possível opor uma outra dimensão vital, vitalista, ou até biológica ou orgânica. O biológico, o orgânico e o vital, no Anti-Édipo, não se opõem ao maquínico, porque maquínico não significa mecânico. Maquínico, antes de tudo, exprime uma realidade produtiva do desejo. E uma realidade produtiva que não se liga a nenhuma forma de verdade, a nenhum princípio de interpretação que nos autorizaria a praticar uma interpretose generalizada do que o desejo quer dizer quando ele se manifesta a partir de regiões inconscientes. “Ah, então era isso. Então o desejo queria se deitar com a mãe e matar o pai. Ah, então o desejo do pai era castrar o filho.” Esse chafurdamento, essa coisa feia, essa coisa que busca sempre o segredinho sujo, inoculando no coração do desejo esse veneno, esse envenenamento da vida. É obviamente uma tolice que a Esquizoanálise denuncia, destitui, combate e vai avaliar as condições sob as quais esse falso problema se torna o problema, por excelência, do desejo nos encontros e práticas clínicas.
E lógico que a psicanálise vai levar isso muito mais longe, porque ela vai adentrar outros campos do humano. Ela vai extrapolar as dimensões da clínica. Ela vai se pôr a interpretar obras de arte, obras literárias, obras de pintura, obras disso, obras daquilo, obras de cinema. Vai querer se tornar, inclusive, científica. A psicanálise vai ter uma pretensão de se tornar um princípio interpretativo tanto das artes quanto estabelecer um paradigma científico para definir a natureza do desejo e avaliar as suas destinações. Ela vai estar sempre buscando — e em Lacan isso se eleva ao máximo, essa pretensão da psicanálise se tornar uma ciência do desejo, uma ciência do inconsciente. Mas, na verdade, esse inconsciente carece totalmente de critério científico, ou de critério de uma realidade que na verdade ultrapassa e muito o que seria o inconsciente real.
A Esquizoanálise vai pensar essencialmente o inconsciente como fábrica de realidade. Houve, em um certo momento do pensamento ocidental, com Kant principalmente, a ideia de que o desejo também produzia. O desejo também produz alguma coisa. Até Kant, a interpretação da realidade do desejo é que ele operava por aquisição. O desejo é algo que opera por aquisição. Eu desejo algo e eu vou adquirir esse algo que eu desejo. O desejo, no máximo, produzia um movimento de apropriação do seu objeto, mas ele não produzia exatamente o seu objeto. Em Kant, há aparentemente um salto, porque Kant vai dizer que o desejo não é simplesmente uma forma de aquisição, mas uma forma de produção. Mas parece que o desejo ganha muito quando simplesmente se diz que ele produz algo, não importa o quê. Em Kant, fica claro que o desejo não produz mais do que fantasmas. O desejo é um produtor de fantasmas, e não de realidade. A ilusão do sujeito se internaliza em Kant, ela se torna intrínseca. Há uma ilusão na própria posição do conhecimento humano, que tem a ver com a natureza do desejo. E necessariamente é a partir daí, da natureza desse desejo ligado ao conhecimento que a ilusão se produz e o fantasma se torna o produto por excelência desse desejo.
Nós podemos dizer que a psicanálise dominante, ortodoxa, e as suas derivações hegemônicas mantêm a posição kantiana. E aqui nós estamos absolutamente em outra posição. Nós nos contrapomos radicalmente a isso, retomando um modo espinosista de pensar. É Spinoza que vai dizer que a essência do humano é o desejo. No Livro III da sua Ética, Spinoza vai dizer, logo no início, se não me engano, na “Proposição 9”, que a essência do humano, além do que ele denomina ser um conatus, um esforço para perseverar na existência, é o próprio desejo. Esse esforço se torna idêntico ao desejo. Então o desejo, segundo Spinoza, é a essência do humano. Mas, para Spinoza, não existe desejo que não seja uma potência em ato. Portanto, o desejo não é uma potência como uma possibilidade, mas é uma potência que já traz intrinsicamente um ato, o que a torna uma realidade, e não uma mera possibilidade. E essa realidade, que é a nossa potência em ato, a potência de acontecer, necessariamente, ao acontecer, ao se relacionar — e ela acontece e se relaciona necessariamente —, produz uma modificação de si (além das modificações que dela derivam). E essas modificações são produções de realidade.
Então, há uma produção de realidade que eu não vou poder, aqui, desdobrar ou aprofundar, mas apenas apontar e sinalizar, como uma sinalização de pesquisa que vocês podem empreender.
Spinoza diz que nós existimos como um modo de uma potência absoluta. Todo o modo é uma modificação dessa potência absoluta, e esse modo é um grau dessa potência em absoluto, é um grau de potência em ato. E esse ato implica um plano de encontro, um plano comum de encontros de todo o existente. E, à medida em que há um plano comum de encontros de todo o existente, todo o existente que se atualiza, que é uma potência em ato, o próprio ato acontece, a sua atualização acontece no encontro com outros corpos, com outras mentes, com outros graus de potência em ato.
Esse plano comum dos encontros é também um plano de composição, no qual as potências em ato que se encontram com outras potências em ato necessariamente se misturam, se modificam, se diferenciam. E nesses encontros, nessas misturas, nessas relações, nessas modificações há uma produção de realidade. E obviamente há, nessa potência, nesse grau de potência que constitui cada um de nós, algo que ultrapassa a consciência que temos dele. Por exemplo, há um pensamento mais profundo do que a consciência que temos do pensamento. Assim como há um movimento mais profundo do que o corpo orgânico que o apreende. Há um campo intensivo do movimento como ser de potência, assim como há um campo afirmativo e intensivo do pensamento como ser de potência, e há um campo intensivo e afirmativo do desejo como ser de potência.
Há sempre uma potência que ultrapassa a dimensão atual de qualquer acontecimento. Nenhum acontecimento esgota a realidade. Há sempre uma dimensão inconsciente do pensamento, assim como uma dimensão desconhecida do corpo. É isso o que leva Spinoza a dizer, por exemplo, que nós, ao tagarelar sobre as façanhas dessa realidade humana dotada de consciência — “Ah, porque a consciência pode isso, a consciência pode aquilo, a consciência é isso e aquilo, a maravilha da consciência” —, ele diz que nós nem sequer sabemos o que pode o corpo. E nós tagarelamos sobre nossa consciência, achando que a consciência pode controlar o corpo, fazer isso ou aquilo com o corpo, fazer isso ou aquilo com as paixões. Na verdade, há algo que ultrapassa o nosso corpo, o que nós conhecemos do corpo, assim como há algo que ultrapassa o que nós sabemos do pensamento. O pensamento é uma realidade que ultrapassa a consciência, e o corpo é uma realidade que ultrapassa o conhecimento que temos dele.
Toda essa dimensão é uma dimensão inconsciente, mas não é uma dimensão inconsciente negativa como uma realidade recalcada, ou uma realidade sem forma, uma realidade caótica, selvagem, ameaçadora da civilidade. Na verdade, é toda uma realidade da potência que ultrapassa as atualizações da existência. É como se Spinoza estivesse dizendo, “Nenhum acontecimento se esgota nele mesmo.” Há sempre uma dimensão inesgotável de cada acontecimento, porque não há acontecimento que não seja efeito de um encontro de potências. E não há encontro de potências que ao mesmo tempo não ultrapasse a sua dimensão de atualização.
É esse ultrapassamento, é esse elemento inesgotável do acontecimento que envolve toda a potência que faz com que possamos retomar, a cada ato, a nossa potência de diferenciar e produzir realidade e valor. Esse plano de encontros, esse plano comum de encontros, para Spinoza, é também um plano de composição de potências. Spinoza vai definir um segundo gênero de conhecimento que ele vai chamar de entendimento ou razão, mas que, para ele, é sempre uma razão de composição de potências. Há sempre uma noção, uma razão comum, sem a qual as potências não se conectam.
Deleuze e Guattari, por exemplo, no início do Mil Platôs, vão falar sobre rizoma e cartografia. E eles vão estabelecer que a realidade funciona de modo rizomático, e não de modo arborescente. Eles fazem a contraposição entre o modelo da árvore e o modelo do rizoma. O modelo do pensamento ocidental é um modelo arborescente, sedentário, que tem raízes fixas, que precisa de um caule, de folhas e de frutos. É o sistema do bom-senso e do senso comum. Já o sistema rizomático é um sistema que não tem finalidade e nem mesmo a profundidade fixa de uma raiz, mas que acontece pelo meio, como meio extremo. E, ao acontecer, se diferencia, retorna sobre si e se diferencia, criando labirintos de potência. Uma rede de diferenciações em cada encontro, em cada ato. Esse modo rizomático de acontecer opera, portanto, quebrando as ilusões de origem e de finalidade. E esse é o modo como o real opera, como o real funciona.
O modo rizomático é expresso no início do Mil Platôs e, de alguma maneira, já o encontramos na obra de Spinoza, a partir do que Spinoza denomina como plano comum dos encontros. Há, então, um plano comum dos encontros onde as potências se conectam e se compõem. No rizoma de Deleuze e Guattari há o princípio da conexão e da heterogeneidade, por exemplo, os dois primeiros aspectos que eles destacam. Toda realidade se relaciona diretamente com outra realidade, sem precisar passar por uma autorização, por uma mediação, por uma hierarquia. Por exemplo, o vegetal não se relaciona apenas com o vegetal, o animal não se relaciona apenas com o animal. Você pode estabelecer uma relação direta e imediata entre dois reinos. Por exemplo, a abelha e a orquídea, ou o trevo vermelho e o zangão. Enfim, há sempre uma relação direta entre elementos que, na representação humana, pertencem a ordens diferentes. Vegetal com animal, como podem se relacionar imediatamente, em conexão direta? Mas eles podem. Eles se relacionam, e algo de real se produz de um lado, na abelha, na vespa macho, e na orquídea, por exemplo, ou no zangão e no trevo vermelho. Há, de um lado, a produção de uma realidade e, de outro lado, também a produção de uma realidade, que ao mesmo tempo depende do encontro de ambos. É uma conexão imediata, direta, sem passar por uma mediação que permitiria essa relação. Essa relação não pede licença, ela acontece. Na química orgânica, nas moléculas que dão origem à vida, acontece a mesma coisa. A relação com as proteínas ultrapassa a relação do DNA de reprodução.
São temas complexos que podemos aprofundar em uma outra ocasião, em uma outra condição. Mas o que o precisamos observar aqui, afirmar e destacar é que há, por exemplo, a conexão imediata de elementos que são heterogêneos entre si. É o princípio da conexão transversal, que não implica uma verticalidade, nem mesmo uma mera horizontalidade, mas uma transversalidade. Uma relação direta de uma potência com outra potência, potências heterogêneas que se conectam a partir de realidades diferenciais. E, ao mesmo tempo, podem também operar cortes que não precisam de representação, não são cortes significantes, mas são cortes que operam a partir da necessidade de uma variação intensiva e contínua de cada potência em ato.
O inconsciente opera aí. O inconsciente é maquínico, e não representativo. O inconsciente funciona, ele não precisa de um princípio interpretativo, nem de uma verdade ou ideal, nem de um complexo ao qual deveria se submeter a partir de uma normalização, sem a qual a realidade seria contra a civilização. Ele não precisa de nada disso. Ele se conecta imediatamente e algo se passa, algo se produz aí, enquanto produção de realidade, e não meramente produção de fantasmas.
Nós podemos, então, fazer a seguinte questão aqui, até para irmos nos encaminhando para a finalização do nosso encontro. Eu vou me ater aqui ao limite de uma hora e meia. Nós temos ainda quinze minutos, basicamente. Mas eu acho que dá para fazer bastante coisa, ainda, em quinze minutos.
A questão é a seguinte: por que nós não apreendemos o inconsciente em sua dimensão maquínica? Eu disse que havia duas grandes razões pelas quais a Esquizoanálise vai ligar esse termo “maquínico”, ou “máquina”, ao inconsciente e ao desejo. A primeira delas é que a psicanálise nos habituou ao vício de interpretar o que o desejo quer dizer. Quando o desejo se manifesta, o que ele exatamente ele significa, o que ele quer dizer? E o Anti-Édipo sempre bateu na tecla: não quer dizer nada. O desejo não significa nada. O desejo é inocente e ele opera, ele funciona. Então há um funcionalismo do desejo. E você pode dizer “Bom, isso tem a ver com o mecanicismo das máquinas. As máquinas operam, elas funcionam, elas imitam ou reproduzem, e até superam certas funcionalidades que o organismo não dá conta”. Então a máquina é uma extensão do corpo, uma extensão do organismo, e ela funciona.
Acontece que o funcionalismo do desejo opera em um nível tal que se trata de um nível microfísico, um nível micrológico, um nível, inclusive, submicroscópico. É um nível molecular, no qual nenhuma forma dita as relações como uma lei. Afinal, essas formas que ditam relações como lei já são formas que só operam a partir de uma realidade molar, e não apenas a partir de uma realidade molecular. Uma realidade molar implica já uma repetição, uma proliferação do molecular de modo estatístico, em uma dimensão estatística, dos grandes números, das massas, dos conjuntos, que por sua vez já implicam formações, substancializações, individuações, subjetivações, significações. É onde de fato a realidade das formas e da representação passa a ter algum tipo de importância, porque ela reage sobre a dimensão molecular, mas, no plano molecular, o funcional e aquilo que forma, o que produz o próprio vivo, não se distinguem. Isso que é incrível.
Deleuze e Guattari vão insistir, e vão citar um autor inglês incrível, que é o Samuel Butler, com sua obra chamada Erewhon ou O livro das máquinas, na qual, já no século 19, ele fazia uma abordagem extremamente profunda e ultrapassava a dicotomia mecanismo vs. vitalismo, dizendo que o desejo está nas máquinas, e as máquinas também atuam como elementos desejantes do próprio desejo. Então se encontra uma relação intrínseca. Depois, com Jacob (François Jacob) e Monod (Jacques Monod), com a biologia molecular, com Raymond Ruyer , que vai pensar a cibernética e a engenharia genética, você vai ter também um aprofundamento dessa questão. Monod e Jacob. Monod, em uma obra chamada O acaso e a necessidade, vai dizer exatamente que a dimensão molecular do vivo acontece no ultrapassamento da fronteira funcional, ou função e formação. O vivo se forma da mesma maneira como ele funciona, então o inconsciente opera justamente nessa dimensão. Ele funciona no mesmo nível em que ele se forma, então não há mais dicotomia entre formação e funcionalidade. O funcionamento do vivo se dá no mesmo nível, segundo a mesma natureza da sua formação, das suas dobras, da criação de um dentro. Então, é desse inconsciente que estamos falando. O inconsciente molecular que maquina através de fluxos e cortes. Ele é fluxo, assim como na física quântica, por exemplo, você tem uma realidade feita de partículas e ondas. A partícula como a extração de um fluxo, um corte, mas que também pode emitir ondas ou fluxos. Fluxos e cortes. Partículas e ondas. O desejo é da mesma natureza. É de uma natureza física. Não há diferença entre a natureza física e a natureza do inconsciente.
O desejo tem, necessariamente, também a dimensão física. Não é como metáfora que a Esquizoanálise fala de inconsciente maquínico. O inconsciente maquínico está nesse mesmo nível, nesse mesmo sentido que Spinoza denomina a sua substância, que é uma potência absoluta de acontecer que opera por diferenciação de si mesma, por produção de modalidades existenciais ou por graus de potência que, ao se atualizarem, se misturam em um plano comum de composição e se diferenciam, produzem realidade, fabricam o real.
Spinoza diz uma coisa muito interessante: que é preciso distinguir a natureza naturada da natureza naturante. Mas, ao mesmo tempo, a natureza naturada é inseparável da natureza naturante, e a natureza naturante é inseparável da natureza naturada. Se distinguem, se diferenciam, mas não se separam. Não há natureza naturante, como essa potência absoluta, que não produz a si mesma e tudo o que dela deriva. Como, por exemplo, a natureza naturada, que é derivada da natureza naturante. E não há natureza naturada que não efetue a diferenciação da própria natureza naturante. Portanto, uma está na outra, está dentro da outra. Uma realidade é imanente à outra. Isso, em Spinoza, é a própria fábrica do real. É desse tipo de realidade que nós estamos falando. É desse tipo de inconsciente.
Quando a Esquizoanálise fala de inconsciente, ela está falando de um inconsciente que envolve multiplicidades, que envolve uma potência absoluta de se diferenciar, de se multiplicar, de gerar o diverso e o diferente. E jamais atrelar essas diferenças a um princípio, a uma identidade, a uma substância subjetiva, a uma substância que estaria fundada em um inconsciente, como uma realidade simplesmente caótica, sem forma, que seria contracivilizatória. Jamais. É de outra natureza.
É isso que eu queria chamar à atenção hoje aqui. Eu sei que são aulas introdutórias a essa questão, e eu falo de uma maneira tal que não fico restrito aos textos de Deleuze e Guattari, porque esses textos envolveriam, para que tivéssemos um mínimo de aproximação com consistência, estudos bem aprofundados, e isso exige um mergulho, exige aulas de outra natureza. Aqui, a nossa destinação, a nossa proposição é de tocar os pontos essenciais para que percebamos que o modo de pensar, de sentir, de agir, de existir da Esquizoanálise tem a ver, na verdade, com uma outra maneira de perceber o real. Uma outra maneira de apreender aquilo que faz o real em nossa própria existência. Nós podemos encontrar um modo de existir que fabrica o nosso inconsciente em ato, aqui e agora. E o nosso inconsciente não é uma realidade em nós à qual falta a consciência. O nosso desejo não é uma realidade à qual falta se tornar sujeito, para daí conquistar o seu objeto adequado. Nada disso. O desejo não tem objeto. O objeto do desejo é o próprio horizonte de acontecimento, que também faz com que ele se torne o princípio de diferenciação que implica, por exemplo, a dispensa do sujeito. O desejo não carece nem de objeto, nem de sujeito. Da mesma maneira, o inconsciente.
Nós podemos, aqui e agora, segundo o nosso modo de viver, perceber a maneira pela qual nós ultrapassamos a nossa consciência ou a consciência que temos do pensamento; ultrapassamos o conhecimento que temos do corpo, e percebemos que atrás do nosso corpo organizado, do nosso corpo atualizado, do nosso corpo efetuado e concretizado, existe um corpo sem órgãos, existe um corpo de intensidades, um corpo atravessado por potencialidades. Assim como existe um pensamento que cria o real a partir do acontecimento, e não das formas que a consciência toma. Esse inconsciente é acessível, ele está disponível, mas, para que ele seja acessado, é preciso que façamos a lição de casa, é preciso que descontruamos as prisões do corpo, da mente e do campo afetivo. É preciso que desconstruamos o nosso mau jeito na existência, que nos impede de ver, que nos impede de pensar afirmativamente, que nos impede de agir criadoramente, que nos impede de preencher de intensidade no acontecimento, nas relações que estabelecemos com a vida.
Nós podemos, sim, acessar esse tipo de realidade. O inconsciente como fábrica que produz o real. O real como diferença e produção de valor, e não como fantasma. E, a partir desse momento, nós encontramos a fonte mesma de produção de realidade, através da nossa maneira de existir. Nós nos conectamos ao imediato da existência. Nós podemos fazer isso aqui e agora. Nós não precisamos esperar a mudança da sociedade, um tempo outro onde a humanidade vai evoluir. Nossa evolução se dá até por outro sentido, mais por involução do que por um progresso. Uma involução à medida em que desistimos de investir em formas que não passam de formas substitutivas, formas representativas, formas de compensar a nossa ignorância. Nós não precisamos disso. Dando um passo atrás, começamos a investir os fluxos e as intensidades muito mais do que as formas. E percebemos que podemos ter a vida nas próprias mãos. Nós podemos ter, sim, a vida nas próprias mãos e criar o nosso próprio destino.
Essa ideia de inconsciente maquínico, inconsciente-fábrica que atravessa a todos nós e também ultrapassa a nossa mera subjetividade ou individuação. Um inconsciente que nos ultrapassa à medida em que ele está conectado com as zonas de todo o vivo e, mais do que as zonas do vivo, com a própria modificação da potência que produz o vivo. É isso que faz com que também apreendamos o ultrapassamento da dicotomia entre vida e morte, e da relação, por exemplo, entre indivíduo e coletivo, entre público e privado, entre universal e particular, todas essas abstrações rasas que a representação humana criou para si, para separar, no fundo, a vida do que ela pode, para corroborar com a separação de uma vida separada do que pode e para compensar. Esse aspecto é fundamental.
No nosso próximo encontro, o que nós faremos? Nós vamos falar de circuitos intensivos do desejo e de uma micropolítica dos afetos. É justamente a partir dessa posição, de um inconsciente maquínico, de um desejo que produz realidade, que nós podemos, ao destacar uma posição crítica, descontruir o modo intencional de desejar, os círculos viciosos do desejo intencional, e nos conectar com o círculo virtuoso do desejo intensivo. E aí estabelecer uma diferença radical entre duas micropolíticas do desejo. Uma micropolítica que é passional e reivindicativa, que investe na falta, na carência, na compensação e no empoderamento; e outra micropolítica que estabelece circuitos ativos, autossustentáveis, que bebem direto da fonte de uma maneira de viver, e deixam de se tornar pedintes ou reivindicar instâncias que tutelem a nossa vida. E assim podemos encontrar aí, de fato, uma autonomia real.
Será objeto, portanto, do nosso terceiro encontro, esse contraste entre dois tipos de desejo. Dois modos de desejar, um intencional e um intensivo, e as micropolíticas derivadas disso tudo. O que nos levará a um investimento na dimensão molecular da existência, e inclusive do campo social. E a uma dimensão molar, uma que teria uma tendência, segundo o próprio Anti-Édipo, paranoico-fascista, que investe nas formas estabelecidas de um centro de soberania. E outra, esquizo-revolucionária, que investe em um desejo, em um modo molecular do real, um modo de um desejo molecular e, para usar uma expressão cara a Félix Guattari, que nos insere no processo de uma revolução molecular, uma revolução molecular que acontece no cotidiano mesmo das nossas vidas.
Então é isso, gente. Eu queria só dizer, por último, que eu li tudo o que vocês manifestaram aqui no chat. A Julia, da Escola Nômade, ia entrar para fazer, inclusive, algumas sinalizações e responder a algumas questões básicas. Ela me ajudou a fazer um resumo do que estava no chat. Eu tive acesso, portanto, não só ao resumo que ela faz, mas ao chat completo, então eu li tudo. E, na medida mesma do desenvolvimento das nossas aulas, vocês podem estar certos de que eu vou estar aqui contemplando as colocações que vocês fizeram. Na medida do possível, também, segundo o formato que temos aqui. Quer dizer, não o formato, exatamente, mas as condições de tempo e de prioridade.
E também quero dizer que as questões que me chegaram por e-mail, eu também as li, e são questões profundas, complexas que, de alguma maneira, se não der tempo de expô-las aqui, desenvolvê-las aqui, eu vou entrar em contato e responder de modo individual.
Então é isso, queria agradecer muito a atenção de todos e todas, e manifestar novamente aqui a minha alegria, expressar a minha alegria em sentir que esse movimento é tão promissor. Eu vi que o nosso primeiro encontro já está se aproximando de 5 mil visualizações. É um número muito grande de pessoas que podemos afetar, de uma maneira tal que esse movimento fica cada vez mais contagioso, e vamos criando essas atmosferas, essas comunidades. Como eu disse no nosso primeiro encontro, sentimos que, no Brasil, ao menos, a Esquizoanálise está se proliferando cada vez mais. E isso só nos causa um contentamento, de saber que também somos parte dessa proliferação, e é isso o que queremos fazer cada vez mais. Nós precisamos, cada vez mais, dessa visão, desse pensamento, dessa maneira de existir que é urgente para que criemos novas maneiras e não fiquemos esperando por políticos e pela revolução. Aliás, a política só vai mudar à medida em que formos também mudando, principalmente, o nosso modo de vida, e deixarmos de ser cúmplices dos poderes tristes estabelecidos. É isso.
Então queria agradecer demais, de novo, manifestar aqui de novo a minha alegria, o meu contentamento, e vamos para o nosso próximo encontro, no domingo que vem. Domingo, se não me engano, é dia 03 de julho, às 19 horas, estaremos aqui de novo. Muitíssimo obrigado a todos e a todas, e nos vemos no próximo domingo. Beijos a todos e abraços, e até lá.

Transcrição por Gabriel Naldi